sábado, 30 de junho de 2018

Bobagens

Gosto de coisas bobas
leio poesia, romance e contos
também vejo filmes e novelas
alguns seriados de internet
e às vezes, somente às vezes
ouço música.
Tenho pares imaginários
e canto tão bem em minha mente
que jamais ouso ferir os ouvidos
das pessoas à minha volta.

Fujo dos jornais, dos noticiários,
dos programas de economia
e dos pregadores da madrugada
que tomam um chá com o capiroto
e condenam o mundo ao inferno.

Madrugada foi feita para sonhar
esquecer a vida, voltar a ser criança
dormir como um feto
enrolado despudoradamente
em lençóis macios e cheirosos.

sábado, 23 de junho de 2018

Café com pão

Acordei, tomei um banho e fiz o café. Novidade alguma nessa rotina herdada da época de meu avô, de meus tios, de meu irmão, pode-se dizer: um costume de família. Porém, quis comer um pão, desses de padaria, pão francês, pão com calorias e carboidratos. Aspirei o aroma de café e pão quentinho em minha memória. Inevitável, tive de sair.
Dei-me o direito de olhar o céu, as folhas das árvores caindo, as pessoas andando em sua pressa diária, dois carteiros de bicicleta na mesma rua: será uma greve? um motim? Nada, apenas a rotina do dia. Carros, motos, gente, salões de cabeleireiro, que em minha rua devem ter uns cinco. Um sábado comum.
Queria ver o dia, precisava desse ar de renovo, deixar o mofo do apartamento, das cortinas fechadas, dos ambientes com luzes acesas e ver uma luz natural. Queria a poesia da ruas, levantar a cabeça dos livros, ver uma vida de verdade, que ocorre fora das palavras e das páginas viradas ao desgaste de uma leitura.

Olhei as casas, as calçadas, sujas de folhas, e gente, muita gente passando. Nem parece inverno, o tempo me traiu e saí com uma camiseta de mangas compridas. Tudo bem, detalhes que se corrigem ao longo do dia. Partia em busca de meu pão, que agora o café na garrafa já esperava e nada me impediria, nem a luz vermelha do semáforo que atrasaria meus passos poucos metros à frente.

A poesia do dia se realizou, um gesto simples, de palavras sussurradas, de cumplicidade quase banal aos transeuntes. Apreciava ao longe uma casinha de madeira, um jardim em desordem de flores e vasos que se amontoavam. Mas, a casa inspirava amor, ternura, felicidade simples dos que exigiram da vida a porção que lhes cabia.

Notei que no portão havia uma senhora japonesa, baixinha, avental sobre o vestido, mãos na cintura enquanto olhava um senhor a sair pelo portão. Um senhor negro, estátua de ébano fundida pelo tempo dos anos, trazia ao seu lado, uma bicicleta monark, vermelha, aquelas que ainda têm garupeira. Parecia feliz diante do dia que o aguardava. Mochila nas costas, pronto ao trabalho. A cena se alongou por alguns momentos mais....e a breve senhora, como lhe permitiu os anos, deu-lhe um beijo de despedida, os lábios se tocaram ternamente por alguns segundos e ela o acompanhou com os olhos. Eu estava quase ao lado, mas eles não podiam me perceber tão puro e lírico era aquele momento íntimo no portão da casa e eles tinham os pés na calçada e o dia todo por enfrentar.

Continuei meu trajeto e percebi um mundo novo que se abria aos meus olhos. Um senhor negro, magro, de chapéu igual aqueles  usados pelos candidatos a escritor, recolhia papelão e o colocava em seu carrinho, ele que puxaria o dia sobre suas costas e com certeza ninguém lhe daria bom dia. Poucos metros depois, em um quartinho de uns míseros metros quadrados, resiste ao tempo uma sapataria, que coloca salto nos sapatos gastos, sola nos sapatos furados e zíper nas blusas de couro.

Percebi que o tempo é essa resistência, que a poesia pode estar diante de nossos olhos todos os dias. Não precisamos abrir um livro, precisamos abrir uma janela em nosso egoísmo e ver os outros, ver o Outro ao nosso lado. Pode ser piegas, eu sei, mas é a melhor maneira de viver. Enfim, cheguei à padaria para comprar o pão francês.

Saí de lá e vim para casa. Abri o computador e tento agora registrar esses momentos, não deixá-los escapar, mesmo que pobremente em minhas palavras. Ah...sim..há Copa do Mundo, mas há tanta coisa mais urgente, tanta vida real para viver, que me nego a ligar a TV e como um pouco mais o pão desta manhã.


quinta-feira, 17 de maio de 2018

Ai daqueles

Ai daqueles que não amaram
ou amaram pouco
por medo de quebrar a cara.

Ai daqueles que beberam
apenas meia dose
e perderam o barato
de um copo cheio.

Ai daqueles que foram mesquinhos
sobretudo consigo mesmos
e deixaram de abrir a mão
e selar uma amizade.

Ai daqueles que não gozaram
que fizeram o sexo burocrático
dos casamentos tristes.

Ai daqueles que não viveram
e deixaram para depois
as incertezas da eternidade.

Ai daqueles que se acharam santos
e perderam da humana convivência
o prazer de partilhar as horas.

Mas, acima de tudo:
Ai daqueles que criticaram
nos outros o desejo que tinham
de viver, de amar, de gozar
de beber até a última gota do copo.

Porque deles não haverá nada
a se contar, nem as anedotas
dos vexames, nem a alegria dos amigos.

Porque para eles restou
ver a vida passar
sem graça e besta
dos que não souberam
amar a humana gente.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A rede

O homem balança devaneios na rede.
Ainda é cedo, menos de meio dia,
mas a rede embala os sonhos
e a rede prende os sonhos.
O homem tem pernas antigas
e olhos de águas passadas.
Embora fatigado do caminho,
o homem respira tempos de vigor.
O mundo é grande e a rede,
pequeno ninho feito de algodão cru,
tece belezas e histórias
trançando em seus fios
o casulo de carinho.
O homem de idade madura
no embalo da rede torna-se pequeno,
menos que um menino.
A rede é útero quente e macio de ternura
onde o homem gesta seus sonhos.
A rede balança de lá para cá
um pé no sonho, outro na realidade.
A rede embala o rei pequenino,
grávida que está do peso robusto
do homem disfarçado em menino,
que sonha no útero emprestado
pelos fios emaranhados
com um sol que lhe arda menos
na cabeça, sem ter a sensação
de tapar o calor do astro
com a peneira de todos os dias.

terça-feira, 8 de maio de 2018

O vazio

O vazio não se vê
com as mãos não se toca
com a boca não se mata 
a fome que o vazio deixa.

O vazio é a ausência
de dor, de tristeza, de alegria.

O vazio é o vazio
e com palavras não se descreve.

O vazio é enorme
e ocupa todo o espaço
que há em meu peito.

O vazio é tudo
e não caibo nele.

O vazio chegou de mansinho
ocupou todos os espaços
sem sombra de ser 
ou de reflexos no espelho.

O vazio deixou suas marcas,
mas invisíveis são as marcas 
desse vazio mudo, sem corpo.

O vazio ocupou o mundo todo
avizinhou-se dos amigos
encontrou os parentes a fabular
levou os amores, as cores.

O vazio é enorme
e tenho dúvidas se não caibo nele
ou em mim, pois o vazio
ocupou todos os espaços
e o vazio sou eu
a rolar pelo mundo.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

No dia de meus 39 anos

Ontem, 16 de abril de 2018, completei 39 anos. Nada aconteceu. Tudo seguiu normal como todos os dias. Levantei, tomei banho, escovei os dentes, tomei uma quantidade excessiva de café como sempre, limpei as lentes dos óculos e sai para uma reunião.
 Acredito que passei incólume por quase quatro décadas. Uma série de sonhos abortados e arquivados em algum canto da memória deve estar cheia de poeira, esperando que eu a espane e disponibilize no Netflix da vida. Mas, ainda é cedo para reflexões melancólicas e, quer saber, tenho pouca paciência para saudosismos.
Foi uma segunda. Isso quer dizer que não bebi. Na verdade, nem lembrei que deveria beber algo. Afinal o serviço público encarnou em mim, pior do que em João Cabral de Melo Neto e não conseguiria beber mesmo que a cerveja estivesse gelada, convidando-me à degustação. Também, não teve bolo nem festa. Teve um pouco de trabalho, para o natural que é uma segunda-feira.
Afinal o que é fazer 39 anos? É estar pelo menos perto dos 40 anos. Talvez longe dos 20 e com uma certa saudade de quando os trinta e pouco ainda não haviam transposto a linha dos 35. Ter 39 anos é tão comum quanto ter 20, 30 ou até mesmo 40. Não tenho 40, mas tenho amigos com 40 anos. A verdade é que um ano pouca diferença faz. 
Um ano para trás ou para frente pouco diz de nós. Somos construídos nas décadas, na longa linhagem de somas de 10 em 10. Se bem que dos 01 ano aos 10 pouco lembramos que valha a pena, dos 10 aos 20 viramos adolescentes e somos chatos demais, achamos que o mundo anda devagar e queremos ficar adultos, dos 20 aos 30 a vida se complica gigantescamente e tudo o que acreditamos deixa de existir, dos 30 aos 40, que ainda não completei, muda mais um pouco e nem sempre achamos que a vida antes era melhor do que agora.
Somos a geração que gosta mais de ter 39 ou 40 anos do que de ter 20 ou 30 anos. Não somos maduros, mas temos uma boa lista de experiências para anotar no caderninho da memória. Os pelos brancos aumentam nos lugares mais inusitados e percebemos que ter cabelos brancos é o problema menor que enfrentamos. Passamos por várias copas, várias eleições, vimos nosso time do coração perder e ganhar, fomos campões, vice, viramos copeiros e jogamos bingo que tanto criticávamos nossos avós.
Passamos a ver aqueles programas cansativos de animais acasalando na tevê e achamos a natureza da África linda. Sonhamos fazer cruzeiros, comprar pacotes de viagem, fazemos compra exigindo o CPF na nota, acumulamos pontos nos smiles, e a palavra aposentadoria surge com seus primeiros acenos. Estamos quase maduros. O exame de próstata passa a nos incomodar e sentimos que algo mais habitará em nosso traseiro, ao menos por alguns breves instantes que fantasiamos e fizemos piadas por longos anos. Sofremos por antecipação.
Passamos a contabilizar alguns amigos, bem poucos sempre, e uma dúzia pelo menos de inimigos. Alguns declarados outros ocultos, sob falsos elogios e sorrisinhos invejosos de nossa vida. Por isso, começamos a ficar como os elefantes que se desprendem da manada, os cães de que se escondem debaixo da cama para morrer e os gatos que somem misteriosamente na calada da noite. 
A religião já não é mais uma necessidade e passamos a conversar com Deus em nossa solidão. Esse sempre presente interlocutor quando ninguém nos ouve. 
Aos 39 já tomamos antidepressivos, fomos ao psiquiatra e ao psicólogo e alguns amigos confessam quase animados que fazem uso de genéricos do viagra, comprados em Salto del Guairá. Alguns amigos já foram internados, fizeram cateterismo, tiraram um câncer, colocaram os filhos na faculdade e viram seus pais partirem. Outros já choraram a juventude das filhas e o voo dos filhos nos braços de uma menina também chorada em algum lugar. 
Ter 39 anos é estar vivo e querer mais vida. Ficamos animados com o aumento de expectativa de vida e vemos programas de saúde para termos uma velhice saudável. Tornamo-nos fitness, passamos a admitir o divórcio, a solidão e até mesmo um novo casamento. Sentimos que a vida pulsa em cada segundo e compramos livros, programamos viagens e acrescentamos alguns sonhos, porque até esses envelhecem. 
Aos 39 não entendemos nossa pressa dos 20 e compreendemos porque a maioria das pessoas gostaria de voltar aos 20 com a cabeça dos 39. Já não cantamos mais Sérgio Reis, dizendo que panela velha é que faz comida boa, porque passamos a ser a panela. Ter 39 anos é ser Tiozão ou tiozinho, que fica feliz quando alguém diz: "nossa, você não parece ter 39 anos". Que pode ser uma cantada ou um consolo diante de nossa idade. Ter 39 anos é apenas ter um número acrescido à nossa cronologia, que segue indiferente aos registros de cartório e da identidade que apresentamos sempre que nos exigem a prova de que somos nós mesmos. Assim, foi o primeiro dia de meus 39 anos. Rumo aos 40. 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Sono

O sono, desse comum, que afeta todo mundo
justifica meu dia, tira de mim a pedra
apertada entre os dedos e desarma
o punho em alto sempre pronto à batalha.

Quem me vê dormindo, de uma nota só respirando
não imagina as batalhas que enfrento nos sonhos.
Meu travesseiro é leve e macio,
mas a cabeça deita sobre pedras.

Se Jacó sonhou com anjos subindo escadas
e da esquina do Céu viu a ponta do Paraíso,
nos meus sonhos vejo gente comum,
gente morta que parece da Eternidade
ter desgostado e com saudades desta vida
vem a mim pedir notícias, breves que sejam,
para sonhar com a vida que o tempo um dia
botou um pedra em cima e plantou uma lápide
irônica que diz: "Aqui jaz..."
para quem ainda tinha tanta perna para andar.

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...