Vejo bater à porta o tempo
e tenho a pressa dos minutos.
As horas me entendiam
e tudo é urgência.
As primeiras rugas gritam
a necessidade de amor.
O corpo lateja ao infinito
e sem pudores
anuncio o cio dos animais.
E depois da cama?
Este sabor de ausência
a alimentar minhas lembranças.
Tenho-te e isto finda
por isso gozo-te
em todos os detalhes
até a exaustão.
Sei que a morte me espera
e eu a adio vivendo em tuas entranhas.
Brinco com o tempo
faço do prazer a espera
que o gozo encerra.
O que resta de ti em minha boca
é suave desejo de colher em teus lábios
essa correnteza que brota arrastando
os móveis dentro do meu peito.
O coração sem freio cavalga acelerado
por um campo desconhecido
ignorando os perigos do caminho.
Em tuas mãos tomo de tuas águas
levo à minha boca o sabor de tuas entranhas
estremeço e experimento o início de tudo.
Teu corpo existe
exploro, então, a geografia de teu prazer
tão sonoros são os gritos que adivinho
virem de tua fenda de mulher.
Perco-me e isso é tudo.
Gememos alheios à insanidade
que só se aplaca com o grito gutural do gozo.
Onde a poesia?
Desço a este inferno mudo das palavras
que se calam diante dos fatos.
Emudecidas estão diante do horror cotidiano
da fome, da violência, da política.
Onde o poeta?
Esse ser que se arrisca entre as ruas
tropeçando na indiferença das pessoas.
As avenidas são binárias
as ruas seguem um único sentido
e todos estão de costas.
Torço para que brote do asfalto uma flor
que gentil alguém abra a janela
e escute em sua homenagem uma serenata invisível.
As crianças estão engaioladas nos parques infantis
Não se escuta nas ruas os gritos ardidos dos pequenos seres de sonho.
Submersos estamos no pesadelo
ninguém mais contempla o sol amarelo
todos usamos filtros solares
e em cápsulas tomamos a dose diária de serotonina
todos sorriem encabulados
e dizem ser o Alzheimer a doença do século.
Chegou em casa já tarde. O marido quase a enfartar todos os dias. A longa espera fez dela uma mulher amarga. Preparou uma sopa leve e pôs em frente ao esposo. Enquanto tomava banho, questionava a Deus por que tamanha cruz. Outras amigas fizeram bons casamentos, os filhos eram bem decididos, só ela ali naquela prisão. Aos finais de semana, postava fotos com o amado, não fossem as amigas desconfiar de suas tristezas. A mãe tentara lhe alertar: "esse homem é velho demais para você, minha filha". Mas, apaixonada, não ouviu ninguém, casou com orgulho, fez álbum de casamento, pagou filmagem e aos domingos, almoço em família, jogava na cara dos parentes sua felicidade. Nas rodas de amigas comentava, entre feliz e até surpresa, sobre o membro avantajado do marido e ao ouvir os "ohs, amiga", convencia-se de sua escolha. Agora isso, o marido imprestável há anos, dependente dela, sentia-se uma cuidadora de idosos. Na esperança de um acidente, aumentava os pedaços de pão seco que acompanhavam a sopa todos os dias. Ao menos se tivesse beleza; outras amigas tinham casos com seus orientandos, ela, porém, com seus 1,54, via apenas a possibilidade de usar sua autoridade acadêmica. Isso a amargurava ainda mais. Ser possuída com o aluno de olho na banca de defesa lhe reduzia a estatura. Tinha pequenos prazeres, perseguia mansamente os colegas no trabalho, fazia denúncias, insinuações, colocava o tapete para os pés daqueles que estavam no poder e, assim, deixavam-na ter alguns cargos sob a ilusão de que era necessária. Nas redes sociais, a imagem empoderada, em casa, o marido quase a precisar de fraldas. Quantas vezes não limpou o vômito do esposo após a janta? Do banheiro ouviu a tosse seca que vinha da cozinha, aumentou o jato da ducha, ensaboou-se lentamente e quase com lascívia tocou seu corpo, não cabia a ela intervir no caminho natural da vida.
Podias estar aqui em minha cama
macia
lúbrica
lasciva
molhada entre meus dedos.
Por que preferes a memória
se meu corpo queima
e deseja tuas carnes possuir?
Que delícias teríamos
se abertas as tuas pernas
me recebesses para contigo
nos deitarmos nesse mar
de ondas convulsas.
Tomaria teus seios
e me amamentaria em tuas veias
ouviria teus uivos misturados aos meus
se na minha cama te deitasses
e com dedos, língua e pênis te penetrasse.
Prometeu a voz divina
que da terra fluiria leite e mel,
mas o que fazer desta mistura,
se vivo de outras águas
e tenho a maldição de ser humano?
Queima-me a pele de outro corpo
e busco nas tuas águas
apagar a chama que me consome.
Tornei-me pastor de teus olhos
e com cânticos ao pé do ouvido
guiei-te mansamente às margens de outro rio.
Ali, sem disfarces, despimos as vestes
e pondo a nu a humana carnatura
descobrimos a geografia das águas.
Não, não nos importamos com o pó
que um dia serão nossos corpos.
A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...