domingo, 8 de outubro de 2023

Fragmentos

Se com a dor que por ora

te assombras

ainda fazes poesia,

estás vivas

e o ar que respiras

ainda não te pesa tanto

que não possa versejar.


Quando te conheci

te vendias pela lógica e pela razão

mas neste bazar que é a vida

a emoção é um penduricalho

que atamos ao pescoço

antes de pular ao mar.


No mercado das ironias que é a vida

desfilei minha dor,

abraçando ausências.

Culpa do poeta.


O poeta tropeça na rima

e rói as unhas.

Cansado das pedras no meio do caminho

e das páginas que arrancou ao caderno da vida,

pensa: o poema a lápis ainda pode ser apagado.


Sou bissexual

tenho fraco por versos e por mulheres

quando não são eles, são elas.

O inferno ainda são os outros.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

É preciso treinar o olhar

Com a correria do dia-a-dia nos tornamos insensíveis, meras máquinas que reproduzem ações mecânicas. Ao menos estou em Maringá e isso dispensa, na maioria das vezes, a necessidade dos bons dias e boas noites. Cansei de cruzar com pessoas que me ignoram em vários lugares. Esses dias, porém, esse comportamento tem sido bem-vindo. Posso desocupar-me das obrigações da polidez e seguir enfurnado dentro de mim.
Escrever se torna uma tarefa árdua. Não sou como muitos que acham dentro de si o material literário que os alimenta. Gosto do que vejo, do que experimento, daquilo que respiro, dos sons que vêm da rua. Eles me despertam a necessidade de escrever. O duro é que estou insensível estes dias. As atribulações do trabalho têm me causado uma cegueira inspirativa.
Hoje mesmo saí pelas ruas de Maringá e fiquei atento apenas ao trânsito, de onde tiro que dirigir seja outra forma de perder a inspiração. Atento a semáforos, radares, faixas de pedestres e outros carros que nos cortam como se fôssemos invisíveis, não me prendi à cidade. E a cidade é vida. Tiro disto a conclusão de que o cronista deve andar a pé, flanar pela cidade absorvendo em seus poros o espírito que paira sobre as ruas.
Da última vez que saí e parei em um bar também foi para trabalhar. Havia corpos que ficaram invisíveis, bocas que se mexiam sem som. Para piorar uma infecção num dos ouvidos, mesmo já curada, ainda me deixava meio surdo, o que me provocou outro tipo de alheamento do mundo que me circundava e havia material de interesse.
Uma mãe, alta e magra como uma modelo, com seu filho preso a um canguru e dependurado ao seio vendia pipocas. Pipocas doces, gourmets como está na moda, cobertas de chocolate e leite ninho. A mãe alegrava a noite com seu sorriso de vendedora. Comprei-lhe uma pipoca e de soslaio ainda vi sua performance entre as mesas dos casais e amigos que compartilhavam uma cerveja e eu estava trabalhando. 
Ela sim estava vivendo e eu estava trabalhando. Ela reconheceu um cão que passeava pelo bar e o colocou na conta de ser propriedade do local. Estranha essa relação do ser humano com os animais, são donos, proprietários dos bichos, enquanto eles vivem alheios a essa necessidade de posse que nos toma conta. Portanto, segundo ser feliz na noite e no mesmo lugar. Um cão e uma mãe que vendia pipocas. Quem mais terei ignorado em sua felicidade? 
Olhando agora, com a medida do tempo que nos afasta dos momentos vividos, imagino essa mãe com seu filho e o cão como num daqueles finais de Charles Chaplin, quando ele com um menino e um cão seguiam pela estrada empoeirada. A vida deve ser isso: a simplicidade de um cão que nos lambe as mãos e uma mãe com o filho ao seio vendendo pipocas. Só falta o "The end" como nos filmes em preto e branco, que nem de palavras precisavam para expressar a felicidade. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Inquietações

 Alma inquieta

explosão de ideias.

No jardim dos sonhos

toda flor é amarela

e um arco-íris entra pela boca.

Sonho um pássaro azul

ele canta na janela

de minhas memórias.

Sou eu a flor

sou eu e o pássaro.

Nesse céu azul inventado

onde Deus é menino

e joga bugalhos comigo.

domingo, 16 de julho de 2023

Tomas e Tereza

 A  Milan Kundera

Entumecido diante de teu belo sexo

imagino outros falos adormecidos

a espetarem tuas carnes.

Repito o ato mecânico

com que me ofereces teu corpo

[eterno aprendiz de outros corpos]

a receber agora o peso de meu peito.

Recupero tuas excitações

concentradas em mim

e gemes profundo de uma voz rouca abafada

a cravar-me tua existência.

És a menina abandonada no cesto

Sou Tomas e tu és Tereza

a se desesperar com o corpo de outras mulheres

que habitam meu sexo.

Não és única

nem sou teu único amado preso em uma torre.

Sobre nossos corpos

pesam sombras de outras épocas.

Sou leve sobre o peso denso de tua respiração.

terça-feira, 4 de julho de 2023

Passado

Um passado não se desfaz fácil assim,

e mesmo em seus ardores silenciado

nas paredes da memória

instala grades e cacos de vidro

que nos aguilhoa a alma nos silêncios do presente.

A primeira sensação de Deus

o amor, nem sempre na cama,

que nos inaugurou o sexo

esse monstro de prazer e angústias. 

Lembro pouco

raramente vasculho o passado

prefiro deixar os mortos calados

essa classe de gente indigesta

que ainda vive em algum lugar.

O passado é esse mar de ossos insepultos

e infelizmente serão eles a jogar a última pá de cal

sobre o fim de meus dias. 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Estreias

Em ti divino Deus

descansei minhas fadigas

vi, porém, teus grandes olhos

me vigiarem as noites nuas.

Meus gozos, meus prazeres

tudo compartilhaste com teus anjos.

Meu corpo nu desvendado

por morenas mãos estreantes

rompeu o véu da inocência.

Colhi maçãs, experimentei das uvas 

o vermelho vinho

e gozei desenfreado os corpos que se abriram

ao meu falo inexperiente.

Deitei na terra úmida

e senti minha finitude

germinar nas mãos de Deus.

Lembranças

 São 6h30 da manhã. Acordo antes de o despertador tocar. Ouço o canto de pássaros que deveriam estar em minha janela. Desconfio que estão presos em uma gaiola no prédio ao lado. Lamento a sordidez humana que não sabe apreciar o dom da liberdade. Os pássaros foram os últimos seres a morrer no dilúvio. Resistentes voaram por dias, dormiram nas mais altas copas das árvores do planeta e quando as águas chegaram, refugiaram-se nas montanhas. Ainda cantavam, mesmo molhados e com frio. Quando as águas subiram demais e as montanhas sucumbiram ao dilúvio, os pássaros novamente voaram anunciando o fim do mundo. Por dias foi possível ver os pássaros nos céus do planeta. Próximos de Deus, logo chegariam aos portais dos céus, que derramavam suas águas sobre a terra, naquele momento mais líquida do que sólida. Logo, Deus se lembrou de Babel e da arrogância humana, veio-lhe à memória os anjos que do céu caíram por ousarem o mais alto trono da divindade e novamente com medo, o grande espírito que já pairou sobre a face das águas, quando a terra ainda era vazia e sem forma, de um só golpe ceifou milhões de pássaros. Caíam do céu, como as águas do dilúvio, pássaros de todas as cores e tamanhos. Por sete dias, as águas ficaram coloridas de penas, uma tela de horror tingiu a face das águas e novamente só o espírito de Deus voava sobre o mundo desfeito. Em poucos dias, o cheiro pútrido dos pássaros alcançou os céus e abrandou a ira de Deus. Noé de sua embarcação queimava estrume para incensar o ar que se tornou insuportável. Na arca os pássaros soltavam seu lamento pelos irmãos mortos nas águas. Noé se alegrou com o canto e sacrificou alguns animais a Deus, não fosse o Senhor irar-se pela falta de gratidão humana. A fumaça subiu aos céus e o Senhor, depois de dias que águas já não mais desciam dos céus, lembrou-se do homem preso em sua embarcação. Era hora de começar a secar as águas e dar um pouso à sua semelhança na terra. Noé soltou uma pomba, mas esta foi negada por Deus ainda desconfiado das intenções dos pássaros, ela voltou para a embarcação sem notícias de vida no orbe. Dias depois, Noé soltou outra pomba e esta, perdoada por Deus, voltou trazendo das mãos do Senhor um pequeno ramo verde. Era símbolo da reconciliação de Deus com os pássaros. Noé tomando o ramo verde como símbolo da aliança de Deus com os homens, quebrou o pescoço da pomba, derramou seu sangue no chão da arca e ofereceu ao Senhor seus louvores. As aves, presas nos gaiolões da arca, entraram em alvoroço e cantavam desesperadas, claro que por falta da humana voz para protestar. Noé regozijou e tomou aquilo como mais um sinal da benção de Deus. Navegou feliz por dias e pensou: quando descer à terra, farei gaiolas para que as aves cantem dia e noite para Deus como sinal de agradecimento por nos ter restituído a vida cotidiana. Mandou mais uma pomba, que Deus não viu a diferença por ser branca também e novamente lhe devolveu com mais ramos verdes. Era o fim do dilúvio e o homem poderia habitar a terra e fazer tendas e fazer festas e coabitar novamente longe dos olhos dos animais. No primeiro dia em terra, Noé construiu inúmeras gaiolas para abrigar os pássaros saídos da arca, acreditou assim garantir a reprodução primeiro, soltaria apenas os filhotes que as aves dessem, as demais ficariam presas para enfeitar seu jardim. Para ter privacidade com suas filhas, Noé cobria as gaiolas toda a noite e coabitava em festa. Meses depois com a vinha dando frutos, Noé fez o vinho e se embriagou. Cam desta vez cobriu as gaiolas e coabitou em paz. De lá para cá os homens têm feito gaiolas e prendido os pássaros. Inúmeros concursos de canto foram feitos pelas associações de criações de aves, que exibiram seus pássaros a outros humanos que não compreenderam o lamento das aves e lhes deram prêmios pela voz canora. Meu avô tinha gaiolas. Lembro-me de um pássaro em especial. Um periquito azul, que meu avô tirava da gaiola e o acariciava em suas mãos. Passei uma temporada na casa de meu avô. Logo ganhei tarefas e uma delas era trocar o alpiste e a água das gaiolas todos os dias pelas manhãs, cuidar para que os pássaros não fugissem e limpar as grades da prisão. Assim como meu avô, me afeiçoei ao periquito azul e com as mãos o tirava da gaiola, até que um dia, confundindo o azul do céu com o azul do periquito imprimi-o contra a abóboda celeste e o vi misturado à tela divina. Nunca mais vi o periquito azul, me foram proibidas as demais gaiolas, mas toda tarde eu olhava para o azul do céu e imaginava quando foi que o homem teve a ideia de fazer gaiolas para prender os pássaros. Nunca mais ouvi a voz de Deus. Alerta: esta história não é sobre meu avô, é sobre pássaros, não suporto gente que tem gaiolas. Provavelmente, não suporte meu vizinho do prédio ao lado que às 6h30 da manhã tira o pano das gaiolas para os pássaros cantarem. 

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...