terça-feira, 14 de junho de 2022

Brasil da fome

Mais de trinta e três milhões

passam fome no Brasil

e somos o país do futuro.

Crianças não têm leite e pão,

nem arroz nem feijão.

O prato vazio reflete

a dor do estômago

que há dias não vê alimento.

Pessoas postam fotos nas redes sociais

viagens a países europeus

sítios paradisíacos ,

enquanto nas vielas e becos

crianças morrem de fome,

idosos encurtam a vida

tomando o café ralo

da última cesta básica

que ganharam de uma campanha.

Não há comida nem na marmita, nem no prato

há vários genocídios em andamento,

matam gays, lésbicas e trans

e matam de fome a população.

Programas de tevê mostram solidariedades,

gente pobre ajudando gente pobre

e o presidente anda de Jet Sky

e come leite condensado.

Somos o país da fome e da miséria.

Milhões dormem com fome

e um genocida exibe a faixa do poder

fazendo arminhas com as mãos

soltando sua gargalhada grotesca,

engolindo os pobres nas ruas e nas cracolândias,

nas favelas e nos barracos vazios de alimentos.

Somos o país da fome

como podemos almoçar em paz

sabendo que não há comida

em milhões de pratos?

Perco a fome diante da barbárie 

do país onde vivo.

Que pecados cometemos, Senhor,

para eleger ser tão ignóbil

que só olha o rico e o patrão? 


segunda-feira, 13 de junho de 2022

Fora de mim

Meu olhar atravessa a taça

ultrapassa o vinho branco

com que mato minha sede.

Sede de outras águas

de outras paragens

onde não posso estar.

Viajo pela borda da taça

cuidando para não cair no abismo

de onde jamais poderei sair.

Encontro-me fora de mim

não posso ser eu

não posso mais carregar meu corpo

minha nacionalidade

neste país que mata negros e índios.

Sonho com uma França distante

e com a liberté, egalité e fraternité

dos tristes exilados. 

Sonho com uma nova pele

um novo corpo, uma nova voz

que substitua meu eu dilacerado.

Bebo meu vinho

em busca do meu eu que deixei

longe daqui. 

Não, não posso mais ter este RG,

não posso mais olhar onde nasci

quero o exílio, quero a pátria que escolhi.


sábado, 11 de junho de 2022

Saga do noivo do passado

 Bem balão, bem balão

dança comigo esta quadrilha

nesta noite de fogos e rojão.

Bem balão, bem balão

vem comigo ser meu par

pular fogueira e comer canjica.

Presos na cadeia do amor

esperando pelo salvador

ouvimos as preces a Santo Antônio.

Bem balão, bem balão

lá vem a noiva de véu e chita

a fugir da cobra e da chuva

aguardando o noivo

que de chapéu na mão e terno remendado

dá seus passos trôpegos

rumo ao altar.

Bem balão, bem balão

olha a cobra

e salta a quadrilha

é mentira e volta a quadrilha.

Bem balão, bem balão

sou o noivo das antigas

sou ladrão da noiva

amor antigo, encalacrado,

venho roubar do altar

noiva, véu e grinalda.

Bem balão, bem balão

que me perdoe Santo Antônio

mas o casamento de hoje

não acontece não.

Bem balão, bem balão

sou amor da juventude

e com o tempo não passa não.

Bem balão, bem balão

chamo para o meio da rua

o noivo fujão,

intimo de faca na mão

aquele que arrasou meu coração.

Bem balão, bem balão

que o casamento fica para o São João,

porque hoje tem briga na rua

hoje tem desafio de faca na mão.

Bem balão, bem balão

que esta lua que me alumia

quero na ponta da faca que trago

o coração do noivo fujão.

Bem balão, bem balão

nesta noite de tragédia

não tem casamento não.

Bem balão, bem balão

levo comigo na garupa de meu cavalo

a noiva que de meus sonhos embalo. 


Artista do tempo

Salto a janela

sou trapezista do tempo,

acrobata da morte.

Busco no passado

não só meu

mas no alheio

vãs satisfações.

Incapaz de viver com os fatos

sou o artista da dor.

Domador de ilusões

e fustigo com a vara

a ferida que nunca sara.

Diante do aplauso do público

rio a minha dor,

no meu último instante

do palco da vida

cai morto

num lugar do passado

onde cozinho minha dor.

terça-feira, 31 de maio de 2022

Reflexões

Sobre minha mesa de trabalho

penso em minha mãe

que com seus 63 anos

mora longe de mim.

Questiono a vida

e minhas escolhas.

Escolhi não ficar

na terra onde nasci

e não me arrependo do que fiz,

mas atrás de mim, a chorar,

deixei família e abraços suspensos

que esperam a hora certa

das visitas incertas.

Ser adulto é assim

ter essa vida errante

longe dos seus.

Não tenho como Régio

uma foto de minha mãe.

Ela vive nas lembranças

e na segurança de saber ela viva,

que é igual ver um passarinho

na árvore a cantar. 

Também não tenho santos

nem um retrato da virgem

sobre minha mesa de trabalho.

Mas, à vezes, dá vontade

de ser menino

e ao igual ao pequenino da virgem

no colo descansar.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

A boca

Essa boca a correr diante de meus olhos 

esses lábios a avaçarem medidas,

desenhando no arco das palavras 

o beijo que se anuncia. 

Você fala e meus olhos se prendem 

nessa abertura que mostra os dentes,

que convida ao beijo demorado 

e me sinto fiel a este momento 

namorando o beijo futuro em estreita boca.

Antecipo o gozo, me animo nesses lábios

que não param de se mexer,

articulando palavras que engulo 

guloso o vermelho dessa ventosa.

A boca pronunciada, saltando de sua face 

me convida aos perigos da vida.

Tenho uma certeza: quero seus lábios 

a desenhar minha boca, fazendo par comigo.

Afasto-me abruptamente 

o sonho me engolia a passos largos 

e a distância sorvia seus lábios

antes de eles se pregarem a minha boca.












terça-feira, 15 de março de 2022

Resignação

Tua imagem perturbou-me

senti descer um espinho pela garganta

e pelas tuas pernas vi correrem meus anos.

Desejei ser jovem.... ser doce...ser belo.

Quase desesperei-me ao volante do carro,

mas conduzi firme até meu apartamento.

Quis despir-me da idade,

um sentimento de ter chegado cedo demais

inundou-me as pupilas ainda dilatadas.

Disse a mim mesmo: o mundo não é justo.

Depois resignei-me, alisei as rugas,

passei os dedos pelos cabelos brancos,

e conferi o número das obturações.

É... o tempo passa - disse ao espelho

e o amor ainda é um cavalo

a golpear-me com suas patas o peito.

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...