quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Respiração


Sublevo-me contra o nada,

este é um mar de ausências

a me fustigar o peito.

Vejo cadáveres por todos os lados.

Pessoas que se calaram para sempre

ainda sufocadas, querem dar o último adeus.

Foram-lhes negadas as despedidas

cerraram suas bocas, romperam seus dentes

e ninguém ouviu o último estalo de seus corações.

Estou só, estamos sós, abandonados,

no mar das inconclusões e das dúvidas.

Espanco desesperado o ar

ainda tenho essa saída.

O grito preso na garganta agride o ar,

sinto-me vivo, inflo os pulmões

e digo aos que partiram

um até breve com os olhos,

para não lhes ofender  os ouvidos.

Sou um privilegiado e isto assusta-me,

não posso doar o ar aos que se foram.

Justamente nós que éramos irmãos do vento

sem pátria, sem nacionalidade, sem documentos,

que provassem nossa humanidade.

Hoje, somos números, cifras, estatísticas,

o oxigênio virou exceção

e nós, os que restaram deste jantar insano,

sentimos a leve mão do ar a nos afagar

com culpas, com desculpas,

por respirar.

Filha

Filha, deverias crescer devagarinho

sem a pressa do mundo

e correr atrás de teus sonhos

pelos cômodos da casa.

Como planta ao sol

a filha fica viçosa,

de um verde esperança.

Brinca de bonecas

penteia pelúcias

e olha para frente

sonhando ser adulta. 

Brevidades

Gostaria de dormir

e acordar poeta

ter a palavra certa

divagar sobre a vida,

as estrelas e a morte.


Quando me amares

avisa-me com antecedência 

para que eu me ocupe de ti

e de ti somente saibas,

esquecendo-me de mim.


O tempo é um relógio

a dizer-me que é tarde

e que devo dormir

porque amanhã levanto cedo. 


A poesia é a alegria

de ver seu sorriso

desmanchando-se na curva

do verso seguinte.

Fim de ano

 A vida corre solta

como um cão alucinado.

A lua brilha no céu

como lâmina de navalha

a barbear-me o rosto.

Sangue e espuma misturam-se

na vida quente das veias.

Um cão rosna solto lá fora,

um gato mia sobre o telhado

e a noite se faz quente e louca

num fim insano de dezembro.

Natal

 As memórias pulsam pelas ruas

na pequena cidade onde nasci.

Aquela esquina tem um beijo meu,

aquele quarteirão está cheio de emoção

e as ruas sem saída rezam uma cantilena

de vozes e sussurros passados.

Nestas ruas de minha infância

deixei meu sangue nas brigas entre meninos

no futebol de asfalto, com os pés descalços

sangrei, gritei gol e fui herói.

Também frequentei igrejas, cultos e missas,

carreguei pão de Santo Antônio

e preguei no púlpito dos crentes.

As memórias são dolorosas

e mal cheguei já penso em partir.

A cidade de minha infância

não brilha no Natal.

Abraço minha mãe, aperto a mão de meu irmão

e sigo rumo ao futuro

fechando as portas atrás de mim.

domingo, 12 de dezembro de 2021

Meu corpo

                                                                                                             A Óssip Mandelstam

Tenho um corpo que me deram

ao qual devo ser fiel

e guardá-lo das intempéries,

dos medos e das ameaças.

Mas um corpo é uma forma

à qual me aprisionaram ao nascer.

Um corpo tem braços e pernas

e uma cabeça que o guia pela vida.

Tenho um corpo que me deram

e não sei o que com ele fazer.

Um corpo nunca anda só

está sempre preso aos pensamentos.

Um corpo é só uma forma

com a qual nos apresentamos ao mundo,

um padrão universal de feitura

que nos enquadra no gênero humano.

Tenho um corpo que me deram

que não sei se agradeço a Deus

ou aos meus pais pelo invólucro

com o qual desfilo pelo mundo.

Um corpo com o qual enfrento a vida,

que está cheio de memórias a contar.

Uma história com ele escrevi

com o corpo que me deram quando nasci.


Saudades de São Paulo

Domingo, doze de dezembro de 2021. Ouço uma fala de Luz Ribeiro e Sérgio Vaz na FLIM de Maringá. Nasce uma saudade enorme no meu peito. São Paulo acena para mim do passado e uma série de lembranças me invadem. Não quero usar rimas, nem sonoridades, nem métricas, quero falar da São Paulo que habita em mim, quero olhá-la com os olhos do passado, das saudades, do afeto que pulsa em mim. Quero falar da São Paulo vivida, que está na minha identidade, que esteve em alguns momentos decisivos de minha vida e que hoje dói em meu peito como saudade de mãe. Saudade de mãe é para sempre, guarda o infinito de nossa finitude e só se encerra no tempo de nossa estadia neste mundo. Assim, São Paulo me veio hoje à mente e ao coração, por isso quero versar sobre minhas memórias, sem rimas, sem métricas, sem estrofes, só versos soltos a correr o tempo do passado. 

Que saudades de São Paulo

de seus domingos claros

de frango assado com macarrão.

Que tempo bom o da infância

quando tomava tubaína só aos domingos

e à tarde comia doce de bar.

Domingo em São Paulo

tem jogo do Timão

e a galera andando por Itaquera

é um bando de louco e irmão.

Tinha domingo triste

tinha domingo alegre

em que o grito do gol

explodia nos pulmões.

Que saudades do metrô

de gente cansada do trabalho.

Que saudades das ruas de pedra

e dos edifícios de concreto.

Que saudades do CEFET

onde passei em meu primeiro concurso.

Hoje é domingo e não estou em São Paulo

não vou comer macarrão com frango assado,

tomo Coca Cola e olho para a parede

para o tempo das tubaínas

e do abraço quente de mãe. 

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...