quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Natal

 As memórias pulsam pelas ruas

na pequena cidade onde nasci.

Aquela esquina tem um beijo meu,

aquele quarteirão está cheio de emoção

e as ruas sem saída rezam uma cantilena

de vozes e sussurros passados.

Nestas ruas de minha infância

deixei meu sangue nas brigas entre meninos

no futebol de asfalto, com os pés descalços

sangrei, gritei gol e fui herói.

Também frequentei igrejas, cultos e missas,

carreguei pão de Santo Antônio

e preguei no púlpito dos crentes.

As memórias são dolorosas

e mal cheguei já penso em partir.

A cidade de minha infância

não brilha no Natal.

Abraço minha mãe, aperto a mão de meu irmão

e sigo rumo ao futuro

fechando as portas atrás de mim.

domingo, 12 de dezembro de 2021

Meu corpo

                                                                                                             A Óssip Mandelstam

Tenho um corpo que me deram

ao qual devo ser fiel

e guardá-lo das intempéries,

dos medos e das ameaças.

Mas um corpo é uma forma

à qual me aprisionaram ao nascer.

Um corpo tem braços e pernas

e uma cabeça que o guia pela vida.

Tenho um corpo que me deram

e não sei o que com ele fazer.

Um corpo nunca anda só

está sempre preso aos pensamentos.

Um corpo é só uma forma

com a qual nos apresentamos ao mundo,

um padrão universal de feitura

que nos enquadra no gênero humano.

Tenho um corpo que me deram

que não sei se agradeço a Deus

ou aos meus pais pelo invólucro

com o qual desfilo pelo mundo.

Um corpo com o qual enfrento a vida,

que está cheio de memórias a contar.

Uma história com ele escrevi

com o corpo que me deram quando nasci.


Saudades de São Paulo

Domingo, doze de dezembro de 2021. Ouço uma fala de Luz Ribeiro e Sérgio Vaz na FLIM de Maringá. Nasce uma saudade enorme no meu peito. São Paulo acena para mim do passado e uma série de lembranças me invadem. Não quero usar rimas, nem sonoridades, nem métricas, quero falar da São Paulo que habita em mim, quero olhá-la com os olhos do passado, das saudades, do afeto que pulsa em mim. Quero falar da São Paulo vivida, que está na minha identidade, que esteve em alguns momentos decisivos de minha vida e que hoje dói em meu peito como saudade de mãe. Saudade de mãe é para sempre, guarda o infinito de nossa finitude e só se encerra no tempo de nossa estadia neste mundo. Assim, São Paulo me veio hoje à mente e ao coração, por isso quero versar sobre minhas memórias, sem rimas, sem métricas, sem estrofes, só versos soltos a correr o tempo do passado. 

Que saudades de São Paulo

de seus domingos claros

de frango assado com macarrão.

Que tempo bom o da infância

quando tomava tubaína só aos domingos

e à tarde comia doce de bar.

Domingo em São Paulo

tem jogo do Timão

e a galera andando por Itaquera

é um bando de louco e irmão.

Tinha domingo triste

tinha domingo alegre

em que o grito do gol

explodia nos pulmões.

Que saudades do metrô

de gente cansada do trabalho.

Que saudades das ruas de pedra

e dos edifícios de concreto.

Que saudades do CEFET

onde passei em meu primeiro concurso.

Hoje é domingo e não estou em São Paulo

não vou comer macarrão com frango assado,

tomo Coca Cola e olho para a parede

para o tempo das tubaínas

e do abraço quente de mãe. 

sábado, 11 de dezembro de 2021

Noemi Jaffe, Rubem Braga e eu em Paris

Um dos caminhos pelos quais comecei minha vida de leitor foi pela crônica. Lembro-me de ter caído em minhas mãos o livro Ai de ti, Copacabana! Hoje, sábado à tarde, estava lendo Não está mais aqui quem falou, de Noemi Jaffe e para minha surpresa, em uma das histórias, encontrei-me novamente com meu velho e bom cronista.
Noemi contava de um possível relacionamento amoroso entre Rubem Braga e Marguerite Duras, durante a resistência francesa ao nazismo. Havia ali uma história de aventura, na qual a autora francesa, com seus encantos físicos e com sua capacidade de atrair amores, seduz um oficial nazista e o leva à morte com a ajuda de seus companheiros, entre os quais, constava o brasileiro. Tudo isso ela soube por uma mulher, que ao que tudo indica, foi uma das namoradas de Braga. Agora velha e sem pudores, pôde contar sua história e mostrou uma carta a Noemi, que emocionou-se diante de tal acaso. 
Não foi pela guerra, porém, que me relacionei com Rubem Braga. Comecei identificando-me com ele pelo fato de ambos não gostarem de guarda-chuvas. Eu, quando jovem, perdia muitos guarda-chuvas e acabei desistindo deles, preferia chegar molhado a carregá-los. Em uma das crônicas de Rubem Braga, ele também narrava seu mal-estar com o objeto grande e negro. 
É curioso os caminhos que nos levam a um autor ou que nos fazem reencontrá-lo. Coincidentemente, está acontecendo a FLIM, na cidade de Maringá. Na festa literária uma das convidadas era justamente Noemi Jaffe. Em um momento da entrevista ela diz que os autores roubam de outros autores suas histórias e misturam-nas em novas histórias, dando-lhes outras roupagens. Faço o mesmo aqui. Roubo um pouco da história de Jaffe para compor a minha, porque foi por meio dela que reencontrei meu velho e bom Rubem Braga. Há anos não o leio, mas ele entrou de contrabando em minhas memórias neste sábado à tarde. 
Acho que Braga esteve comigo em Paris em 2018, mesmo que eu não soubesse. O tempo de repente virou e me vi atingido por uma enorme pancada de chuva sob a Torre Eiffel, corri a me abrigar, mas mesmo assim fiquei encharcado. Novamente, a despeito do tempo, estava eu sem guarda-chuva. O tempo já se mostrava revolto, no entanto, quis confiar em minha intuição, que falhou. Devo constar aqui que havia vendedores de guarda-chuvas nas imediações da Torre, inclusive vendendo aparatos transparentes com inscrições de "Paris Je t'aime". 
Não me arrependo de ter evitado o guarda-chuva, afinal de contas, tomei uma chuva em Paris. Não é todo dia que alguém pode se encharcar na cidade mais famosa do mundo. Para eu que já tomei chuvas mais modestas em rincões pouco conhecidos, era um batismo a água que molhava meu corpo. Pouco tempo depois, veio um sol arrebatador e logo eu estava seco e em um barco, navegando pelo canal do Sena.
Posso dizer que mantive a minha dignidade e a de Rubem Braga, fiéis ao hábito de não portar guarda-chuva. Afinal, era uma tarde de passeio e a chuva só trouxe uma experiência a mais. Agora, que li a história de Noemi Jaffe, fico me perguntando se Braga não tomou alguma chuva em Paris, enquanto esperava por Marguerite Duras à beira do rio Sena. Será que eu teria olhado o Sena diferente, se soubesse que meu cronista favorito havia estado em Paris? Não sei. Mas, agora que sei da história, dei um jeito de enfiar Rubem Braga em minhas memórias e sem autorização alguma de família ou de amigos, o cronista esteve comigo em Paris pois, como diz Maurice Halbwachs: nunca estamos verdadeiramente sozinhos. 
Assim, a partir de hoje, quando voltar a Paris, poderei ver o rio Sena acompanhado de Rubem Braga. Olharei o rio, contemplarei o passado e saberei que sou mais um brasileiro a andar pelas ruas parisienses sem guarda-chuva. 



sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Pandemia

Olho pela janela

uma tragédia lá fora

anuncia mais de 600 mil mortos.

Esforço-me por sair

de dentro de mim,

piso corpos e o cheiro fétido

da morte exala pelo ar.

Um cheiro atroz de sepulcro

sai da boca do presidente

e mães, filhos e pais choram

a ausência dos que partiram.

A voz insensível da morte

se espalha pelos bares

em casas noturnas corpos dançam,

em campos de futebol se gritam gol,

enquanto corpos apodrecem

sob a terra escura.

Olho pela janela

e lá de fora só vem um forte cheiro de morte.

Tempos de amores

Houve um tempo de quimeras

amores ouviram promessas,

mulheres, comigo, partilharam planos

para umas, louco me dei

para outras, pouco me entreguei.

Houve amores de meses, de dias,

alguns tiveram a sorte das estações

a todos, porém, o inverno chegou,

a todos o crepúsculo tragou

e fui ficando só

de uma solidão mansa

calma dos loucos alucinados. 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

O testemunho das flores

As flores....

a sintonia 

entre as árvores.

As flores cravadas

no asfalto.

Amarelo sobre o negro

a brilhar como o sol.

As flores cândidas

de abril em florescer

a vida que o mês viu nascer.

As flores testemunhas

da vida e da morte

do princípio e do fim.

As flores que viram

meu lento adoecer

florescem sobre o asfalto

hirtas, imunes à dor. 

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...