sábado, 11 de dezembro de 2021

Noemi Jaffe, Rubem Braga e eu em Paris

Um dos caminhos pelos quais comecei minha vida de leitor foi pela crônica. Lembro-me de ter caído em minhas mãos o livro Ai de ti, Copacabana! Hoje, sábado à tarde, estava lendo Não está mais aqui quem falou, de Noemi Jaffe e para minha surpresa, em uma das histórias, encontrei-me novamente com meu velho e bom cronista.
Noemi contava de um possível relacionamento amoroso entre Rubem Braga e Marguerite Duras, durante a resistência francesa ao nazismo. Havia ali uma história de aventura, na qual a autora francesa, com seus encantos físicos e com sua capacidade de atrair amores, seduz um oficial nazista e o leva à morte com a ajuda de seus companheiros, entre os quais, constava o brasileiro. Tudo isso ela soube por uma mulher, que ao que tudo indica, foi uma das namoradas de Braga. Agora velha e sem pudores, pôde contar sua história e mostrou uma carta a Noemi, que emocionou-se diante de tal acaso. 
Não foi pela guerra, porém, que me relacionei com Rubem Braga. Comecei identificando-me com ele pelo fato de ambos não gostarem de guarda-chuvas. Eu, quando jovem, perdia muitos guarda-chuvas e acabei desistindo deles, preferia chegar molhado a carregá-los. Em uma das crônicas de Rubem Braga, ele também narrava seu mal-estar com o objeto grande e negro. 
É curioso os caminhos que nos levam a um autor ou que nos fazem reencontrá-lo. Coincidentemente, está acontecendo a FLIM, na cidade de Maringá. Na festa literária uma das convidadas era justamente Noemi Jaffe. Em um momento da entrevista ela diz que os autores roubam de outros autores suas histórias e misturam-nas em novas histórias, dando-lhes outras roupagens. Faço o mesmo aqui. Roubo um pouco da história de Jaffe para compor a minha, porque foi por meio dela que reencontrei meu velho e bom Rubem Braga. Há anos não o leio, mas ele entrou de contrabando em minhas memórias neste sábado à tarde. 
Acho que Braga esteve comigo em Paris em 2018, mesmo que eu não soubesse. O tempo de repente virou e me vi atingido por uma enorme pancada de chuva sob a Torre Eiffel, corri a me abrigar, mas mesmo assim fiquei encharcado. Novamente, a despeito do tempo, estava eu sem guarda-chuva. O tempo já se mostrava revolto, no entanto, quis confiar em minha intuição, que falhou. Devo constar aqui que havia vendedores de guarda-chuvas nas imediações da Torre, inclusive vendendo aparatos transparentes com inscrições de "Paris Je t'aime". 
Não me arrependo de ter evitado o guarda-chuva, afinal de contas, tomei uma chuva em Paris. Não é todo dia que alguém pode se encharcar na cidade mais famosa do mundo. Para eu que já tomei chuvas mais modestas em rincões pouco conhecidos, era um batismo a água que molhava meu corpo. Pouco tempo depois, veio um sol arrebatador e logo eu estava seco e em um barco, navegando pelo canal do Sena.
Posso dizer que mantive a minha dignidade e a de Rubem Braga, fiéis ao hábito de não portar guarda-chuva. Afinal, era uma tarde de passeio e a chuva só trouxe uma experiência a mais. Agora, que li a história de Noemi Jaffe, fico me perguntando se Braga não tomou alguma chuva em Paris, enquanto esperava por Marguerite Duras à beira do rio Sena. Será que eu teria olhado o Sena diferente, se soubesse que meu cronista favorito havia estado em Paris? Não sei. Mas, agora que sei da história, dei um jeito de enfiar Rubem Braga em minhas memórias e sem autorização alguma de família ou de amigos, o cronista esteve comigo em Paris pois, como diz Maurice Halbwachs: nunca estamos verdadeiramente sozinhos. 
Assim, a partir de hoje, quando voltar a Paris, poderei ver o rio Sena acompanhado de Rubem Braga. Olharei o rio, contemplarei o passado e saberei que sou mais um brasileiro a andar pelas ruas parisienses sem guarda-chuva. 



sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Pandemia

Olho pela janela

uma tragédia lá fora

anuncia mais de 600 mil mortos.

Esforço-me por sair

de dentro de mim,

piso corpos e o cheiro fétido

da morte exala pelo ar.

Um cheiro atroz de sepulcro

sai da boca do presidente

e mães, filhos e pais choram

a ausência dos que partiram.

A voz insensível da morte

se espalha pelos bares

em casas noturnas corpos dançam,

em campos de futebol se gritam gol,

enquanto corpos apodrecem

sob a terra escura.

Olho pela janela

e lá de fora só vem um forte cheiro de morte.

Tempos de amores

Houve um tempo de quimeras

amores ouviram promessas,

mulheres, comigo, partilharam planos

para umas, louco me dei

para outras, pouco me entreguei.

Houve amores de meses, de dias,

alguns tiveram a sorte das estações

a todos, porém, o inverno chegou,

a todos o crepúsculo tragou

e fui ficando só

de uma solidão mansa

calma dos loucos alucinados. 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

O testemunho das flores

As flores....

a sintonia 

entre as árvores.

As flores cravadas

no asfalto.

Amarelo sobre o negro

a brilhar como o sol.

As flores cândidas

de abril em florescer

a vida que o mês viu nascer.

As flores testemunhas

da vida e da morte

do princípio e do fim.

As flores que viram

meu lento adoecer

florescem sobre o asfalto

hirtas, imunes à dor. 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

O gesto humano da crônica

Escrever uma crônica em uma cidade grande é fácil. A vida pulsa, o trânsito é caótico, mil possibilidades de crimes e acontecimentos passam pelos olhos do cronista. Nas cidades pequenas a vida já é diferente, exige do cronista um olhar mais atento aos fatos, às pequenas coisas que acontecem ao seu redor. Um evento em uma feira, uma conversa de ônibus, uma fila de posto de saúde, a página de crimes da cidade. E olha que nem moro em uma cidade tão pequena assim.

Mas, acredito que sobretudo, a falta de assunto também vem do fato de eu estar saindo pouco. A pandemia trouxe uma nova realidade e eu que saía raramente à cata de vida para colocar nas crônicas, passei a sair menos ainda. Confesso que isso tem me atrapalhado a olhar o mundo. E escrever uma crônica exige do cronista um olhar sobre o mundo.

O cronista munido de seus olhos, papel e caneta nos bolsos parte em busca da inspiração ideal. Anda pelas ruas, visita mercados, passa pelo shopping, anda em feira de adoção de animais, artesanato, visita todos os lugares e olha qualquer coisa que possa parar em um texto. O trabalho do cronista não mudou muito desde João do Rio, que também saía à cata de histórias para sua Alma encantadora das ruas.

A vida do cronista é a rua, por isso os bares são tão importantes. É onde se para a observar o mundo. Ver pessoas, ouvir histórias, lamentos, choros que desaguam em um copo de bebida. Mas, hoje o mundo está cheio de cafés e gente chata. Não é a mesma coisa que ir a um bar ou uma padaria, encostar o umbigo no balcão e pedir uma média e um pão com manteiga na chapa. Não. Definitivamente não. Gourmetizaram até as padarias, que passaram a ser vistas como boutiques do pão. 

Por isso, ainda gosto daquela padaria de bairro, onde se chega, cumprimenta o balconista que já te conhece e sabe teu pedido. Nos bairros a vida ainda pulsa. Pode se ir ao mercadinho comprar carne ou um sabonete a anotar na fichinha sem que se consulte o CPF ou te exijam o maldito cartão de crédito. A vida ainda se baseia numa relação de confiança e dependência. 

O centro da cidade desumanizou as relações. São computadores e consultas a cadastros, números de celulares para enviar mensagem por Whatsapp, fidelizações inúmeras que nos transformam em cadastros. Por isso, ainda gosto de ir à feira, passo no banco, tiro o dinheiro e vou à feira do produtor no pátio do Willi Davis comprar em espécie, sentir o cheiro do pastel frito e do espetinho que é feito na hora. Ali é possível comprar com o produtor, sem caixas de mercado a passar códigos de barras em um leitor. Apalpamos a verdura, escolhemos o tomate e a abobrinha e a fidelização é feita ali na confiança da próxima compra que ocorrerá dois dias depois. 

Acho que estou um pouco cansado dessa vida mediatizada. Tudo são computadores e telas, reuniões por meet, os encontros reais desapareceram e com eles a crônica corre grandes riscos de sumir também. A crônica se faz no contato humano, nos fatos inusitados, no ponto de ônibus, com o vizinho chato que varre a calçada com água, com o bêbado do bairro, com a tia inconveniente que passa para dar um oi. 

Sem vida pelas ruas a crônica morre. Ela se nutre das situações inesperadas. Ela está no detalhe com que se levanta o copo para levá-lo à boca. O instante mágico em que a crônica acontece na cabeça do cronista se nutre dos gestos humanos. E é isto que estou tentando fazer hoje, buscar o gesto humano ideal, o assunto chave para a crônica que tento escrever e, por isso, flanei, falei de tudo e de nada, me perdi em assuntos, caí em incoerências e deixei a crônica fluir em busca de suas vítimas. 


quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Menino

Quando menino

ainda franzino

subia goiabeira

e vivia sem eira nem beira

a correr pelas ruas.

Jogava bole de gude,

bola de meia e capotão,

vivia as aventuras

de correr as ruas

de revirar os becos.

De traquinas,

mexia com as meninas

e apanhava do pai

sem nem dizer ai.

Os livros também lia

e nas horas de vigília

sonhava ser herói

para o mundo salvar.

Salvaria a mãe

das pancadas do pai,

faria do irmão

um grande gavião

para sonhar liberdade

e viver sua idade.

De tudo que sonhava

e de todos que amava

queria do choro livrar

e para eles uma casa dar.

Onde de manhã

teria café da manhã

com leite e pão

e uma suave mão

a acariciar um cão.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Inundação

 Nóis é rio

que corre ladeira abaixo

ninguém para a gente

descemos brandamente

no mansamente das águas,

mas nóis arrasta tudo

não confundam constância

com moleza

nóis é duro que nem pedra

com nóis não se brinca

que uma chuvinha

faz de nóis uma inundação.

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...