Ando pelas ruas
disperso o olhar
em busca da inominável poesia,
em busca do inominável Deus
que nos abandonou
à nossa própria sorte.
Vejo pernas, rostos e expressões
da mesma humana dor
diante da incerteza do amanhã.
Éramos garotos em uma cidade tacanha de tamanho e de espírito. Palmital não é uma boa cidade para se viver, a população é nociva, mesquinha e tem mania de grandezas sobre pequenas coisas. A vida corre lenta e sem mudanças, talvez o apocalipse pudesse por fim nela e a seus habitantes.
Infelizmente, nasci em Palmital, suas ruas não me trazem saudades, apenas dores e tristezas. Mexer nesse baú é despertar sentimentos diversos, contraditórios, que se adequam bem aos domingos. Por isso, hoje acordei com necessidade de lembrar.
Queria escrever algo ao estilo de A cidade e a infância, de Luandino Vieira, mas não posso. Gostaria que a cidade onde nasci me despertasse amor, saudades, leveza, o peso dela, porém, não permite esses excessos da imaginação.
Como falei, acordei com necessidade de lembrar. Éramos garotos em uma cidade sem pista de skate, com poucas quadras para jogar futebol e alguns campos quase privados, com pequenos mestres a dominar o local. Para piorar, alguns campos eram dos crentes e para jogar bola precisávamos frequentar os cultos e baixar a cabeça para os donos do campinho.
Sair de Palmital foi o melhor que fiz. Terra de gente tacanha e mesquinha. Repiso aqui apenas para que não tenham dúvidas. Romper a bolha viciosa é um esforço gigantesco de se sobrepor aos filhinhos de papai, donos da cidade.
Algo de bom tínhamos. A arte de incomodar as pessoas. Como garotos saíamos pelas ruas sem rumo, a pé, sem pressa para que a cidade não acabasse sobre nossos pés.
Nosso gosto, e pelo que pude verificar esses dias ao falar com minha mãe se mantém, era o de apertar campainhas. Havia algumas técnicas. Solitário era mais fácil, apertávamos a campainha e saíamos andando naturalmente e mesmo sob acusação podíamos negar o feito. A segunda técnica era em grupo, de algazarra, de fome de aventuras, que como disse em Palmital sempre eram pequenas. Aí não tínhamos saída, era apertar e sair correndo; a tropa saía em passos de cavalo e ao dono da casa restava os gritos e os xingamentos.
Um dia, num grupo de uns quatro garotos, o que incluía meu irmão, apertamos uma campainha. A dona da casa estava chegando de carro e saiu atrás de nós nos perseguindo com o veículo pela rua. Subíamos calçadas, escondíamos atrás de carros e essa mulher nada de se satisfazer. O ódio brotava cada vez com mais força sobre os olhos dela e ela perseguia. Logo havia um prazer mútuo entre correr e correr atrás e aquilo se prolongou por vários minutos, até que convencida de ter dado uma lição nos garotos, voltou para sua casa satisfeita.
Saímos ofegantes de trás do veículo, ao mesmo tempo o riso brotava de nossos rostos. A aventura da noite estava garantida, nossa fome de apertar campainhas saciada. Havia duas saídas, voltar para casa e descansar ou ir até a praça da cidade ver o movimento. Como ainda era cedo, fomos para a praça ver os rapazes ricos passar de carro e as meninas pobres ou ricas a esperar que um deles parasse e as levasse para dar uma volta.
No caminho de ida e volta ainda fizemos mais algumas vítimas.
A vida é uma tênue linha presa ao nosso coração. Ele bate, bate, bate incansavelmente, dando-nos a impressão de que somos eternos, de que jamais partiremos e embarcamos nessa viagem sem volta mal abrimos os olhos. A consciência da efemeridade da vida vem apenas com a morte, ela nos avisa que temos um fim.
À tarde recebi um telefonema de minha mãe. Logo imaginei que algo ocorrera, porque ela não me liga poucos dias depois de eu ter ligado. Deixamos criar saudades, ausência, falta e, então, ligamos de novo, dizemos oi como se tivéssemos nos falado pela manhã. Desta vez, porém, minha mãe me ligou e do outro lado a ouvi chorar; imaginei que fosse minha prima Sandra e realmente era. Havia falecido à tarde, com o cair do sol no horizonte. Agora mesmo, enquanto escrevo, faz poucas horas que minha prima morreu. O fio tênue que a ligava à vida se desprendeu e ela se foi.
Pouco saiu da cidade onde nasceu. Sempre esteve ligada à terra e à família; não deixou filhos, mas amava e mimava os sobrinhos com doces de seu bar. Ela mesma exagerava nos doces e não podia. Tinha diabetes há vários anos. Descobriu logo cedo que herdara da mãe a doença. Só não podia imaginar que tão cedo lhe explodiria a bomba no corpo.
O diabetes foi insensível, cruel, começou levando-lhe um dedo, depois meio pé, depois mais meio pé até que ela que tão bem se equilibrava sobre os pés, andando pela cidade com toda velocidade que as pernas lhe permitiam, se viu em uma cadeira de rodas. Foram anos de expectativa, mas as feridas nunca fecharam, teimavam em abrir fendas em seus quase pés, infernizando-a dia e noite.
Agora, o que fazer com essa ausência? Com a dor que ficou, com seu vazio? Minha prima se foi, morreu, deixou de respirar numa tarde de fim de março, próxima à Páscoa. A Semana Santa ficou mais triste que de costume e o silêncio deixado por ela, neste momento, preenche todos os vazios. Estou longe, lutando para que as palavras façam sentido, para que o sentimento escorra pela página, mas sinto que as palavras estão insensíveis à minha dor e parecem não realizar a pessoa que foi Sandra.
O que fazer quando qualquer ato será inútil, quando até mesmo minha presença não será percebida por ela? Faço este texto de despedida, mas o sinto tão cruel comigo, com ela, tão fraco, que nem chega à altura do que ela foi. Ao menos, foi amada pela família, que se acostumou com ela ali, na cadeira de rodas, ora bem, ora mal, indo e vindo do hospital, que, desta vez pensamos: ela voltará, olhará o mundo com resignação, com aceitação de quem não pode fugir ao destino. Ela, porém, não voltou, não se sentou de volta em sua cadeira e nem olhou o movimento da rua.
A cadeira está vazia, não terá mais sua dona sobre ela. O bar ficará mais triste, com a ausência daquela figura sentada à sua porta, sempre disposta a ajudar a família, a irmã, minha mãe. Sinto-me ingrato neste momento, pois, provavelmente não irei ao velório, nem dará tempo de eu chegar, pois a pandemia devora a todos, até aqueles que não pereceram por ela. O tempo dos velórios foi reduzido, os adeuses encurtaram, nem podemos nos acostumar com a ausência, com o nada que sobra atrás de nós.
Como se acostumar à morte? Com o vazio deixado pela pessoa? Com a ausência da voz? Amanhã ela já não estará entre nós, nem seu corpo mudo nos deixará perplexos. Haverá apenas o nada, os bons dias sem sentido, o espaço vazio à mesa, a tarde em que ela não mais chegará para ficar com minha tia, enquanto minha mãe iria à igreja. Haverá apenas a memória, as recordações de alguém que começa a se apagar desde a última vez que seus olhos contemplaram as paredes brancas do hospital.
Por isso, estico-lhe a vida, estiro um pouco mais o fio de sua existência, gravo na folha em branco a sua presença, para que ela fique um pouco mais conosco, para que ainda não diga adeus em definitivo, para que perdure nas palavras, para que se ancore nelas, como um barco ao cais.
Estás agora sozinha em teu caixão, fechada numa funerária, aguardando a despedida de amanhã, Quem embalará tua cama para que durmas? Para que não tenhas medo do desconhecido? Quem te darás a mão nesta última noite aqui na Terra?
Este é o meu adeus a ti, Sandra. Minhas palavras de despedida, meu aperto de mão, meu beijo no teu rosto, que agora gelado não poderá sorrir. Sempre estarás colada à minha história, à minha infância, às visitas que eu fazia escondido à tua mãe(quando a família estava brigada), às andanças pelo sítio, pela cidade, nos breves momentos em que te vi, quando visitava minha mãe e ia até o bar para conversar contigo. Da última vez não pude te ver, pois não estavas bem e dormias. Agora dormes para sempre e não podes me ver novamente. Dou-te minhas palavras, faço-te esta lápide de letras que perdurará para sempre.
Dorme bem, dorme em paz, sem dores e que no outro mundo possas andar de novo sobre teus dois pés.
Não percebi quando os móveis começaram a ganhar quinas. Meu mundo arredondado desaparecera. Vieram as primeiras batidas, os primeiros golpes na cabeça. Antes via o mundo de baixo, agora era um trombar constante em quinas de mesas e armários. Era como se aquele ambiente doméstico antecipasse as dores que viriam mais tarde.
As grandes aventuras ficaram para os livros. Neles eu era livre e jamais me machucava. No mundo real vivia a me bater contra os objetos e pequenos ferimentos passaram a habitar meu rosto.
Uma vez, vendo pequenos pingos que subiam ao ar, fiquei curioso e subi em uma cadeira. Vi um mundo borbulhante. Minha mãe fritava batata doce, ao menos é a imagem que ficou em minha memória, e eu querendo ver os pingos subirem, peguei num copo d'água e atirei dentro da frigideira. Meu rosto virou um campo de guerra, não havia onde por o dedo indicador. Minha mãe curou as bolhas com creme dental Kolynos, nem um marca ficou em meu rosto. As únicas manchas que tenho são da catapora que veio depois.
Não fui uma criança forte, pelo contrário, faltavam forças para muitas atividades. Vivia adoentado, comia pouco e quase desmaiava. Também, nunca havia muita comida em casa, mas não era isso que me afligia na época, penoso era ter de comer o que me punham à frente do rosto. A noção de escassez ainda não habitava meu imaginário.
Então, minhas aventuras eram dentro de casa, quando muito no quintal. Nossa casa tinha apenas dois cômodos, era alugada e de fundos.
Um dia, lembro-me bem, entrei em contato com a morte. Vi um homem levar um tiro na cabeça. E minha casa ficava nos fundos, numa descida grande. O sangue em breve desceu; antes foi tomado pelos cães que vieram lamber a poça vermelha que se formou em torno da cabeça do morto. Depois ocupou todo o quintal. Com a lavação, mais sangue desceu e lavou as hortelãs que havia no fundo de casa e que serviam para os chás contra lombriga.
Naquele dia, aprendi que nem tudo o que vemos contamos, porém, a imagem jamais saiu de minha cabeça e como um quadro fixou-se entre as primeiras memórias de minha infância. Eu estava crescendo. Jamais deixaria de lembrar.
A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...