domingo, 19 de janeiro de 2020

Pingo

"Foi o momento mais difícil de minha vida". Isso foi dito pelo meu irmão ao cavar, entre lágrimas, a última morada de Pingo. Ele ficou na família por anos. Agora voltava à terra no mesmo lugar em que fora encontrado quando filhote. 

A Tekinha, que era outra cachorra que meu irmão tivera, havia morrido há poucos dias, sofrera muito com as dores e, por fim, voltou à terra. No lugar em que fora enterrada, surgiu um novo cãozinho, ganindo, com frio. Alguém o abandonara perto das bananeiras, numa noite de tempestade, na chácara de uma amiga de meu irmão.

A vinda de Pingo foi vista por ele como a reencarnação da cachorra que partiu. Não que ele fosse espírita, mas a coincidência o abalou bastante. Logo, ele surgiu na casa de minha mãe com aquele minúsculo animal e com a promessa de que o cãozinho ficaria por apenas alguns dias. Não ficou, passou dez anos na família.

Quase todos os dias, meu irmão visitava nossa mãe, e também o Pingo, que quando chegou a hora de ir para a casa definitiva se negou a partir. Algumas horas na casa de meu irmão e pronto, o cachorro queria ficar na casa de minha mãe. Foi o que aconteceu, ficou para sempre, naquele para sempre determinado pelo destino, que decide quando romper o fio da vida.

Pingo virou membro da família. Também cresceu. O nome ficou inadequado, pequeno demais para o tamanho do cachorro. Mas, nome é nome e Pingo ficou ali, ocupando os espaços, dormindo pelos cantos, acompanhando minha mãe na hora de fechar a casa e dormir. 

Pingo foi um cachorro preguiçoso, doméstico demais para latir contra os gatos. Adotava todo gato que pulava o muro da casa de minha mãe e com eles fazia a maior farra. Deitava sobre os gatos, corria atrás deles para puxar-lhes pelo rabo e não teve jeito. Alguns gatos passaram a frequentar a casa e a dividir a ração com ele.

Meu irmão sempre tem uma hora determinada do dia para aparecer na casa de nossa mãe. Em pouco tempo Pingo aprendeu a ouvir os sons da bicicleta antes dela chegar ao portão e, então, se plantava ali para recepcionar meu irmão. Reconhecia-o pelo cheiro ou pelos ruídos das pisadas, que nós não percebíamos, mas que para ele indicavam a chegada de seu segundo dono. 

Não foi diferente ontem. Após sofrer por alguns dias, Pingo esperou ansioso a chegada de meu irmão. Durante a manhã ganira um pouco, chorara, recebera o afago de minha mãe. Porém, mais nada restava a fazer a não ser acompanhá-lo nas últimas horas de sua vida. 

Nessa tarde de sábado ele não pôde ficar no portão aguardando seu segundo dono, não ouviu o barulho da bicicleta nem acompanhou os sons dos pés de meu irmão. Pingo, deitado como estava, ficou à espera dele. Recebeu-o de olhar triste, partido o coração por saber que não comeria mais em sua mão. 

Pingo morreu ouvindo a voz de meu irmão. Como se não quisesse morrer em silêncio,  Pingo ouviu a voz humana até seu último momento na Terra. E assim, entre afagos e sussurros, Pingo partiu, voltou ao local de origem, está plantado junto às bananeiras onde foi deixado em meio a uma noite de tempestade. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O mundo é uma estranha chave
que não ouso girar.

Muros

Meus muros estão cheios
de cacos de vidro
de cercas elétricas
de fios de arame farpado
de grampos pontiagudos.

Não ouso tocá-los
tampouco ultrapassá-los.
Saltar os muros não é uma opção
é uma fuga covarde.

Os muros são minhas fronteiras
mas também estão presos a mim
condenados a vigiar-me eternamente
plantados em torno da vida
que não terão jamais.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Fim?

Está chegando ao fim...
do ano
das vidas
dos sofrimentos
das alegrias
dos gozos
dos choros
das promessas

que inauguram....
novo ano
novas vidas
novos sofrimentos
novas alegrias
novos gozos
novos choros
novas promessas
que se renovam
no velho ciclo da vida.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Luzes de Natal

Cintila um jogo de luzes
ao redor do globo inflado.

O mundo cabe em um balão
e as luzes não cessam.

O universo é uma esfera
nítida, lisa, transparente.

As minúsculas mãos dançam
e criam um mundo colorido.

O sorriso é pequeno para o rosto
e os olhos brilhantes cintilam.

O balão fica pequeno
e não cabe mais entre as pálpebras.

A criança adormece no colo
e o universo de luzes brilha só.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Do prazer e da alma

Por que sempre a alma?
O que fazer dela na cama,
se o corpo pede e o prazer emana
de lascívias indizíveis, de atos cúmplices
de mãos atadas à procura do Outro?
Não do Outro idealizado
mas do outro corpo que se estende
e se agita à nossa frente.
Deixem a alma fora desse prazer,
conjuguem os lábios e todas as bocas,
as fendas e todos os encaixes
porque a Alma, a alma espera tudo
e o corpo não pede nada
a não ser a doçura do prazer.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Às pressas

Chegaste tão depressa
como essas aves sem pouso,
que a sombra de teu beijo
tão somente roçou meus lábios.
E és assim, grande rio caudaloso,
que serpenteando entre meus braços
escorreste pelo meu corpo.
Deixaste, porém, o som de novas águas
o aroma de flor da manhã
e a promessa de novas correntezas
a fluir de teu poço corpo infinito.

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...