sexta-feira, 19 de julho de 2019

Amarelinha

A vida crava em mim suas unhas
arrastando-me pelas ruas, vielas,
avenidas e becos sem saída.

Cansei de resistir
não atento mais a mim [contra mim]
sigo e não questiono
respiro o ar a dentadas
como se estivesse faminto

Avanço nessa amarelinha saltitando:
um pé, dois pés, um pé
e chego ao Céu
não sem antes ter passado
 pelo INFERNO

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Me segura, que vou dar um troço

Marido e mulher há anos juntos, pode-se dizer, casados, esposa e esposo sempre tem suas picuinhas, suas miudezas que azedam o dia ou até uma semana. 

No andar de cima do prédio onde moro, conheço um casal que tem brigas gigantes por pequenos temas e, não raro, voa algum pires ou alguma porta é batida com estrondo. Ambos em um diálogo extremo levado aos extremismos.

A última arenga foi a polêmica quanto à palavra "enfarto" ou "infarto". Digladiaram por dias a respeito do assunto. Cada qual com sua razão e seu rancor. Buscaram dicionários: novos e antigos, fora de uso, foram ao latim, à filologia românica, só para não terem de dar o braço a torcer. O fato é que um ficou com o enfarto e a outra com o infarto.

Pela manhã, à mesa, e protegidos pela fumaça que levantava de suas xícaras de café, eles rangiam entre dentes: "enfarte" - "infarte" e saíam ambos azedos da mesa do café da manhã. Ele não se despedia para ir caminhar e ela fingia falar com uma amiga ao celular, tudo por causa de um enfarte...ou infarte....

Esta manhã, seu Luis enfartou. Foi um deus nos acuda. Ele caído ao chão, com a mão no peito, urrando de dor, pedia que ela ligasse ao corpo de bombeiros, à ambulância, ao diabo que fosse, que ele estava enfartando. 'Chame o médico, estou enfartando', 'Calma homem, é só um infarte', 'Enfarte', 'Não, é só um 'infarte', 'deixe disso, mulher. Chame o médico'.

Havia um prazer sórdido no olhar da mulher, que sentia seus lábios crispados pela vingança. Olhava-o sem dó nem piedade, devorando cada colherada daquela sopa fria da vingança. Seus olhos brilhavam e ela sentia-se encantadora. Até pensou na encomenda de um vestido preto para o luto triunfal. 

'É só um infarte, não faça escândalos'. 'Está bem, estou INFARTANDO', gritou a todos pulmões. Nisso, a mulher despertou do transe e desesperou, bateu à porta dos vizinhos, ligou aos berros ao corpo de bombeiros, ficou só frangalhos. 

Deitada sobre o corpo do marido ela chorava a partida de seu velho de discussões. Chorava copiosamente e sem vergonha alguma diante dos vizinhos atônitos, que até pouco tempo antes, com os ouvidos colados às paredes ouviam o derradeiro debate.

Ao final do dia seguinte, recebendo os familiares e as visitas pelo luto, ela solenemente declarou: "Ele morreu de enfarte, um homem tão bom, meu Luis". 

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Desertos

Quanto de deserto cabe em um homem?
Quanto de solidão cabe no deserto (em mim)
e no homem que enfrenta o deserto?

A ampulheta mínima da razão
escorre pelos meus olhos
e Sou simplesmente.

Sou deserto, areia que o ar leva no vento.
Mas, também sou solidão
areia que arrasta da palma da mão
o ir e o vir, o subir e o descer
da ampulheta do tempo.

Sou deserto, sou solidão, sou areia
que arrasta em mim o tempo.

sábado, 13 de julho de 2019

Esquecimentos

Vou me esquecer,
esquecer-me de tal modo
e sempre
até que haja em mim
só o esquecimento
puro e simples.

E serei todo esquecimentos
daquilo que passou.
Já nem mais sei
se algo posso dizer[...]
se cabem aos inúteis argumentos
as esmaecidas palavras...

Sem memórias e sem lembranças,
desmemoriado de dias,
terei esquecido, esquecido
de tal modo e sempre
sem as conhecidas esquivanças
até que eu não mais saiba
do que me havia esquecido.

Serei assim: esquecimentos
sem mágoas ou ressentimentos,
apenas folha que se desprende
esquecida do galho ao qual pendia,
como o fôlego tolo à vida se prendia.

sábado, 6 de julho de 2019

Estamos todos sós

E....
a vida recobra seu ritmo modorrento
de monotonias, melancolias e tristezas.

Os adeuses, as partidas indesejadas
as bocas que trocam de lábios

e deixam entreabertos os silêncios
das dores mudas suspensas no ar.

O debate político na televisão
o corpo que se pendura no quarto....

Estamos todos sós....

as pás do ventilador gritam no teto da sala
enquanto a família indiferente
vê o noticiário e come pipocas brancas

diante da última tragédia do casal......

que morreu abraçado ao desespero
do inelutável adeus.

domingo, 30 de junho de 2019

Linha tem(cor)poral

Sei-te em outra linha tem(cor)poral
e alheio aos fatos
sonho-te.

As linhas unem-se
e rompem as distâncias

do corpo ausente que fala,
dos lábios que se fendem
e se juntam a outras linhas tem(cor)porais
que não são a minha.

Mas, sei-te aí presente,
toda corpo luminescente.

E eu ausente
ocupo outro espaço na linha
incorpórea da memória.

Por isso, não existo,
sou linha-tempo de um ricto
perdido no espaço,

solto nas horas agudas,
presa da imponderável dor do silêncio.






domingo, 23 de junho de 2019

Orai pelas vítimas do incêndio!!!

Esses últimos dias têm sido frequentes os incêndios na França. Ontem mesmo a televisão noticiou um outro incêndio no 11e arrondissement de Paris. Houve três mortos e quase trinta feridos. Aqui os dias têm sido longos e as noites extremamente curtas. Então, com o sol ainda alto, mas já sendo 22h00 uma fumaça preta e espessa brotou no apartamento ao lado do meu. Eu estava tentando ver o jogo do Brasil contra o Peru em um link da internet.

Neste momento, a vizinha aperta a campainha e golpeia desesperadamente a porta de meu apartamento. Mal controlando seus maxilares, avisa que o apartamento dela está pegando fogo. Foi ao banheiro e deixou a panela sobre a placa elétrica. Quando saiu, o apartamento estava tomado pela fumaça preta e a cozinha em chamas.

Saio apressadamente em busca de um extintor para entrar no apartamento e apagar as chamas. Logo descubro que não havia nenhum extintor no prédio. Nisto eu já havia subido, descido, batido à porta do síndico e nada. Subo novamente e pego meu passaporte, computador e os comprovantes do término de meu pós-doutorado, tiro o chinelo e coloco um tênis para facilitar a corrida se preciso fosse, desço com o corpo e as roupas que estavam nele (que diga-se de passagem, neste dia, não eram muitas). Com o telefone em mãos disco o 18 para chamar os bombeiros.

Devia estar nervoso, porque a moça do outro lado da linha pedia para eu sair do prédio e ter calma, que os bombeiros logo chegariam. Nesse curto ínterim, eu respondia às perguntas e dizia que não havia feridos, dando o endereço completo. Havia um pouco de pânico em algumas pessoas, principalmente nas do sétimo andar e uma calma excessiva em outros moradores do prédio que ao serem avisados, literalmente saíam à francesa como se não fosse problema deles. Alguns estavam com seus cães, outros indo passear e uma senhora, indiferente à ideia do fogo, subiu para seu apartamento como se fosse imune à fumaça e ao incêndio.

Quando olho para a moça do apartamento que estava em chamas, vi que teve a mesma ideia que eu, pegou seu computador e com ele estava abraçada e trêmula. Descubro que ela é da Guiana Francesa e vamos esperando os bombeiros. Conversa vai, conversa vem, com mais pessoas à volta e tensas, percebo que não havia largado o picolé e enquanto tentava uma solução, não o havia parado de chupar. Já havia outros vizinhos no pátio da garagem e olhávamos com os pescoços tortos para cima na esperança de que o fogo não alastrasse.

Minha cabeça fervilhava e eu pensava que meu último fim de semana na França estava se tornando um verdadeiro desastre. Comecei a calcular possíveis prejuízos e só fiquei mais calmo porque com o passaporte a salvo, era comprar umas roupas e embarcar. Só me lembrei bem depois do incêndio controlado que minha carteira com cartões havia ficado no apartamento. 

Os bombeiros chegaram e subiram rapidamente. Fizeram meia dúzia de perguntas, enquanto chegavam a ambulância e uma quantidade exagerada de policiais, que excedia ao número de bombeiros. Graças a Deus, ao universo ou seja lá o que estava olhando por nós, o fogo foi controlado, sobraram as manchas pretas, o cheiro de fumaça e algumas pessoas fazendo inalação, que por curiosos tentaram entrar no apartamento e ver o estrago enquanto ainda estava em chamas.

Clima mais calmo, semelhante ao que acontece nos velórios, falávamos da Copa do Mundo de Futebol Feminino, da Copa América e das diferenças entre Brasil e França, aguardando a liberação para retornar ao sétimo andar. Um pouco de tosse, talvez psicológica, nos demos conta de que era quase meia noite. 

O mundo estava voltando à sua ordem e percebo, então, que às vezes a morte pode passar muito perto, talvez ela ronde um pouco, passe do lado, lembre-nos de nossa fragilidade e naquele dia, já tendo levado consigo alguns parisienses, resolveu apenas passar por Lyon e lembrar imigrantes, estudantes estrangeiros e franceses, que se colocar no lugar do outro pode ser mais do que um ato de solidariedade. 

A morte pode brotar de uma simples panela no fogão. Espero não ter mais surpresas até a volta. 
Au revoir France!!! Priez pour les victimes de l'incendie du 11e arrondissement de Paris. Amen!!

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...