sexta-feira, 5 de abril de 2019

Abraço

Estico os braços
mas sinto-os curtos
para tamanha distância.

Por que desperdiço-me em palavras?
São elas inúteis trastes velhos no fundo
das inúmeras definições do dicionário.

Quero abandonar os verbos
e abreviar teu mundo no curto espaço
que fecha a circunferência de meus braços.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Ausência?

O que é ausência,
se carrego comigo o teu corpo
colado às minhas costas?

Não mais celebrarei a ausência,
porque estás comigo....
e como me é leve as tuas mãos
sobre meus ombros cansados....

e como me pesa o corpo,
se sinto que por instantes
te aligeiras o passo
como se quisesses aliviar em mim
o peso que por prazer ignoro.


domingo, 31 de março de 2019

Caminhante

A Antonio Machado
Todo pasa, todo queda
Como olhar para frente
se ficou para trás o fôlego
dado ao passo trôpego?

Caminhante, o caminho
também se faz olhando
aquilo que os olhos ignoram.....

Caminhante, o caminho
também é percorrido com os passos
que ficaram para trás....

sem pernas, sem corpo, só rastros
e o passado é esse fantasma
que jamais vê o pôr-do-sol....

Caminhante, não há caminho
que uma vez conhecido
deixe de ser nosso caminho.

Caminhante, só é possível seguir
buscando aqueles que hoje em sombra
iluminam o eu que ficou para trás....

sexta-feira, 29 de março de 2019

Tecituras

A questão é achar a ponta
passar a linha pela agulha

porque se não pode haver pontas soltas,
também não há ponto sem nó.

E quando eu juntar a minha ponta 
à sua ponta solta e der o nó
do outro lado da agulha,

remendarei o tecido da dor
e cerzirei o buraco da ferida.

Quando ele abrir de novo  [e é certo que abra]
nossas mãos terão linha
para remendar

e juntos teceremos aquilo
que os fios soltos de nossas existências
jamais puderam fazer separados.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Reclamada ausência


Por que, ignorante, reclamo da ausência?
Ela é presença constante
que em vazios, me preenche os dias,
é recordação pura, bruta em estado maior
de gritâncias, gestos e protestos.

Ainda sem teu corpo, o que reclamo
é a ausência física, 
porque gritas em meus ouvidos
mal vejo a luz do dia me despertar.

E é sob gritos de protestos que adormeço
apegado a essa ausência branca, pura, intocável,
que me afaga os cabelos e sobre os joelhos
me nina e mima em afetos e esperanças.

Esperanças de que os sonhos antecipem o encontro fatal,
inevitável dos corpos que se consomem em corpo,
um corpo de verdade, embebido 
de suor, pele, boca e mãos em comunhão.

domingo, 17 de março de 2019

Mexericas

Sei que não posso dar tudo o que queres, porque sei também que a vida não te dará tudo o que desejares. É uma equação complicada de se resolver no coração, impor a ele a razão em vez da emoção. Teus pedidos ainda são simples, mas percebo que alguns deles eu não consigo cumprir e isso me causa uma frustração enorme. Mas também sei que se der tudo, estarei mentindo o mundo para ti. Difícil esta tarefa de Madre Teresa e carrasco ao mesmo tempo.

Pela manhã, comias mexerica. Antes, porém, passavas-a pelo rosto e admiravas a cor laranja da casca. Então, colocaste a mexerica diante de mim e falaste: tira a casca...e enquanto eu retirava os pedaços da casca, ias criando animais, bichinhos de estimação e realidades novas iam brotando dos fragmentos colocados sobre a mesa. 

Neste momento, pensei em todo o desserviço que fazemos às crianças dando a elas todos os brinquedos prontos, achando que com isso estamos agradando ou dando mostras de carinho. Há um universo na cabeça das crianças, elas criam mundos, tecem fantasias e são felizes com cascas de mexerica ou com o brinquedo mais caro que tenhamos comprado em uma loja. Do mesmo modo, rapidamente esquecem a ambos.

Os gomos ficaram para trás, espalhados pela toalha da mesa, eles não tinham mais importância, as cascas eram um mundo perfeito para teus olhos. Queria proteger-te das dores, das desilusões, das frustrações que o mundo te proporcionará, mas sei que não tenho tantas mãos e nem tantos olhos, sei que precisarás viver também, experimentar o mundo e saber que antes de comeres os gomos da fruta, terás muitas cascas para arrancar. Mas, isto, terás de aprender sozinha.

Experimentei esta sensação de impotência e culpa, porque também haverá vezes que a causa de teus sofrimentos serei eu mesmo, quando caíste do sofá pela primeira vez e imitando Gregor Samsa, que talvez nunca venhas a conhecê-lo, mesmo havendo mais de uma edição em minha estante, mexias desesperada, sem saber o que havia acontecido, as pernas e as pequenas mãos contra o enorme céu branco do teto do apartamento.

Ali soube que te machucarias e que estava longe de ser um mundo perfeito para ti e me culpei por dias, me impus um autoflagelo exagerado e uma semana de pedidos de perdão em teu ouvido, que ainda nem distinguia os sons da língua. 

Sei que estarei distante em muitas situações, que não poderei estar na sala de aula no teu primeiro dia da escola, que não poderei escolher teu namorado e por mais que eu possa achá-lo feio, para ti isto pouco importará. É...... a vida é feita de escolhas e logo perceberás que nem todas elas são as melhores e vais chorar de novo, talvez chupando mexericas em um sofá e com a sensação de que esta manhã já se repetiu algum dia no teu passado.

Não te lembrarás do teu mundo feito de cascas de mexericas, nem da manhã de domingo em que inocentemente criavas uma realidade própria e eras dele dona. Talvez tenhas o mesmo sentimento de frustração que tenho e perceberás que está crescida e que ligar para teu pai será apenas uma forma de compartilhar as dores, que são inevitáveis a todos nós.

Mas, por ora, chupes a tua mexerica, ela veio tão doce desta vez, que me arrependi de não ter pego dois pacotes...



sexta-feira, 8 de março de 2019

A la mujer de primaveras...

Cuando llegue la primavera....

Me acostaré a tus espaldas
y masticaré la flor blanca
de tu piel reluciente....

No te deseo con alas
pero que te quiero libre
para que me elijas a mí
teniendo todo el horizonte
delante de tus ojos...

No te quiero añorar más
quiero mirar mis manos
sumergidas entre las tuyas
y acostarme sintiendo el olor
de tus labios rosados
mientras veo tu sonrisa blanca
a reírme, porque suelto por ahí
vine a soñar bajo la cobija
de tus pechos y del cielo de tus ojos....

Quiero romper el vidrio
y sentirte carne y huesos
desmemoriado del tiempo
en que eras un recuerdo
y la tenía solo entre mis manos
en las noches oscuras del olvido.



  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...