quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Corvo irmão

Desajeitado corvo
teus passos de pato
e tuas asas negras de luto
guardam segredos
de quem aprendeu a voar
porque andar era difícil.

O pouso ainda é desajeitado,
aos saltos, tendo de abrir as asas
para reduzir o impacto
sobre as finas pernas de graveto.

Corvo grotesco, és belo e medonho
na tua falta de charme,
és obsceno
como um velho despudorado
a quem o tempo deu a liberdade
de deixar sobre o criado-mudo
as máscaras da dissimulada cortesia.

Enquanto as criancinhas alimentam os pombos,
os corvos recolhem ao rés-do-chão
as quinquilharias de um universo
esmagado pela indiferença
dos humanos pés calçados.

Corvo obsceno e despudorado,
irmano-me contigo em solidariedade
de quem sabe que o chão
é o princípio e o fim de todas as coisas.

domingo, 2 de setembro de 2018

Uma manhã difícil e um coração


Um coração não é fácil de se achar. Quem tem um coração disponível? Disposto a enfrentar as dores e os problemas das relações amorosas? Um coração é como um tesouro, frase de Almanaque Fontoura, eu sei. Porém, uma vez encontrado, temos de trabalhar todos os dias para não quebrá-lo e isso não é fácil. Um coração disponível, então, mais difícil ainda.
Será possível encontrar um coração novo, sem uso, com todas as etiquetas para o caso de uma troca ou devolução? Um coração embalado para venda? Será possível comprar um coração na loja de usados? Talvez em um brechó de corações? Nas lojas de antiguidades? No site da Amazon? Existe um coração que pode ser encontrado em alguma praça pública, escondido entre as flores ou entre as folhagens de um jardim? Não sei. E tudo o que sempre desejei foi saber, saber de tudo, ser um sabe tudo, um sabichão. 
Um coração quebrado não é fácil de se consertar, é quase obsceno um coração quando está despedaçado (Os Aztecas amavam a guerra florida). Porém, no mercado das relações amorosas conhecidas ou desconhecidas, legais ou clandestinas (Clarice bem o sabia), nacionais ou estrangeiras, falsificadas na 25 de março ou em Ciudad del Este, os corações vivem sendo quebrados, colados, remendados, mas, continuam sendo corações à procura de um amor ou de quem os ame, e também em busca de alguém para amar.
Em tempos modernos falar de amor parece "breguice"; no entanto, por que procuramos tanto? Por que há tantas redes sociais e sites de encontros lotados de pessoas, na longa fila do sonhado amor. Programas de televisão se multiplicam e fazem encontros às cegas, brincam de cupidos, fazem propostas e o público aplaude. Do outro lado da TV há uma grande quantidade de telespectadores rindo, entupindo-se de pipoca e coca-cola, comendo lasanhas, chocolates, enquanto discretamente olham seus celulares para ver se alguém ligou, enviou mensagem, deixou algum "like" ou deu "match".
Um coração não é fácil de se achar, temos de procurar com calma, com cuidado, pode estar perdido em uma praça, escondido entre as folhagens, quebrado, remendado, mas à espera de alguém que o veja, que o compreenda, que possa ajudar a juntar os cacos, dar forma e sentido novamente àquilo que fora quebrado.
Tudo isso me passou pela cabeça em uma manhã fria em Lyon, não muito fria para um francês e bastante fria para um brasileiro. As coisas não andavam bem, estavam desordenadas e desequilibradas; eu olhava para o rio Rhône e tentava entender o fluxo da vida, quando resolvi sentar em um banco e vi o mesmo morador de rua do dia anterior sentado no banco ao lado. Como se olhasse para o nada, ria e ria sem incomodar-se com as pessoas.
Sentado, e também com o nada diante de mim, vi entre as folhagens um coração em alto relevo, vermelho, colado, montado, um mosaico de cacos que parecia pulsar, saltando da pedra; havia os espaços entre os cacos, rios que cortavam o coração, pequenos cortes de concreto, mas era um coração como tantos outros: ferido, triste, solitário por diversos motivos que fugiram aos planos; mas estava lá, ainda sendo um coração, vermelho como o das caixas de bombons compradas a preço de ouro nas lojas de souvenirs.
Havia ali um coração, um coração de pedra, esculpido por algum artista triste, solitário, que resolvera deixar na pedra seus sentimentos. Seu coração endurecido habitava um jardim de solitários, transeuntes, andarilhos, pessoas apressadas para chegar ao trabalho, pessoas precisando pensar na vida, como era o meu caso. Todos, portadores de um coração, talvez inconfessadamente em pedaços, assim como aquele coração, quebrado, com os cacos colados, desafiando os habitantes da praça a olhá-lo, a enfrentá-lo como um espelho, como um reflexo puro de uma manhã triste em Lyon.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Lyon era apenas uma foto


Há alguns meses Lyon era uma foto registrada no Google imagens ou no Google maps. Algo ainda não palpável, uma existência de Wikipedia, registros de tripadvisor, assuntos de blogueiros, ou melhor, blogueiras, que não usam blogs, mas Instagram para registrar suas viagens e vender os produtos que carregam pelo corpo. 

Lyon era uma espera distante. Um sonho talvez, um objetivo, algo a ser alcançado, talvez um projeto já colocado no futuro remoto das intenções que jamais se cumprem. Postava no Status do Whatsapp fotos de uma Lyon desconhecida, de uma Universidade de Lumière Lyon 2 tão distante quanto uma narrativa de Julio Verne em minha infância. Eu não estava nestas fotos, impossível estar nelas, nem sequer um passaporte eu tinha. Minhas viagens mais longas tinham sido a Buenos Aires e a Asunción. Viagens proveitosas e reveladoras, porém, sempre no Cone Sul, às voltas com os ditadores ou governos populistas estampados nas manchetes de jornais ou, então, nas páginas policiais.

De repente, depois de muito esforço, conversas, boas-vontades de algumas pessoas, que resolveram me ajudar em tempo ou fora de tempo, Lyon começou a crescer, virou uma passagem aérea, uma data, um dia, um embarque, alguns aeroportos no jogo de conexões feito pelas empresas e, quando vi, estava em Lyon. As ruas existiam, as pessoas não eram mais fotos ilustrativas de folhetos de viagens, havia franceses, senegaleses, marroquinos, chineses, gente de toda a parte do mundo circulando sobre e sob as pontes que cortam o Rhone e o Saône. Eu estava em Lyon carregado de malas, uma delas com uma das rodas quebrada, falando um francês enferrujado e tentando entender um novo mundo à minha volta.

Uma vida ficara para trás, interrompida por um ano, suspensa, à espera que eu retorne, diferente, mudado ou a mesma pessoa; talvez com uma bagagem maior de vida, uma experiência a mais. Abria-se uma nova página, que está nos primeiros dias de construção; cheia de receios, incertezas, novidades, choques culturais de um novo Peri em terras francesas, de um Macunaíma em terras próximas dos primeiros pícaros do mundo.

Lyon não era mais apenas uma foto de pesquisas recortadas das páginas de outros viajantes. Percebi que Lyon existe, que o mundo parece pequeno, ou melhor, que o mundo é mundo e no final das contas, as pessoas são pessoas, que viajar é necessário, mas que do outro lado também encontraremos pessoas que precisam viver, que sonham, não com Lyon ou Paris, mas, talvez, com um Brasil cheio de praias, com uma Copacabana de Vinicius e Tom Jobim, com um Pelourinho de Jorge Amado, imaginando-se suadas atrás de um trio elétrico, loucas para fazer partes de uma paisagem desconhecida para elas, que, assim como eu, recortam fotos no Google imagens e colam em seus status de redes sociais.

Hoje, Lyon existe, não é mais um horizonte. Vejo o horizonte daqui e busco um mundo melhor, um local para morar por esse período, mas Lyon está perto demais para ser um horizonte, estou no meio dela em busca de onde me situar, de onde ser um ponto no mapa, de onde existir nesta Lyon tão nova para mim. Por isso, a foto em frente à Universidade Lumière Lyon 2 agora tem um novo elemento na paisagem, temporário por certo; contudo, eterno nos fatos, que um dia serão lembranças, recordações, memórias de fundo de gaveta, que contarei às pessoas e, algumas delas, entre a dúvida e a crença as
verão como anedotas de um velho contador de histórias. 




sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Vejo sonhos

Vejo sonhos sobre duas pernas
corpos se multiplicam
carregando sonhos, ilusões,
expectativas de uma vida melhor,
nem boa, nem má.
Tenho essa mania de olhar
através dos olhos, das bocas
e as pessoas ganham vida
deixam de ser número de CPF e RG
e passam a ser seres sonhantes
despidas da humana máscara
de pele, creme e perfumes.
Alguns sonhos têm pressa,
outros flutuam o olhar,
buscando sonhos semelhantes.
Também vejo sonhos solitários,
alguns tristes, outros conformados,
vejo sonhos em espera
sonhos prontos para viver a realidade,
sonhos interrompidos,
sonhos guardados na gaveta,
esperando a hora certa
de serem vividos.
Desde que adquiri essa mania
de ver seres sonhantes,
comecei a ver gente em todos os lugares,
gentes esquecida das idades e prazos
dispostas a sonhar
porque são nos sonhos
que as realidades são construídas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O poema sobre todas as coisas

O indescritível saber
de todas as coisas
espraia-se por teu corpo.
O véu branco que estampa
em amor e medo
abre-se em sorrisos
e dentes e boca
revelam um mundo
de possibilidades
até ali inexistentes.
É ânsia, glória,
gozo antecipado
que exalam da flor
do corpo nu.
[todo ele significados].
Poema inútil
sem forças de descrever
o que é o adormecer
e o despertar ao lado
de quem se ama
a quem por vontade
se entrega o corpo e a alma,
a quem arranca de nós
um pedaço essencial da vida.
Tremo e não sei porquê,
vibro de alegria e caio
em tuas mãos, entregue
ao amor e à dor,
à alegria da chegada
e à tristeza da partida.
Amor não tem explicação,
mas há um momento da vida
em que alguém nos arranca
a alma e faz dela prisioneira
e não queremos outra coisa
que não estar preso por vontade,
porque a simples ideia da liberdade
não comporta em nosso espírito
espaço para razões.
Quando o Amor nos olha,
ele ganha nome, olhos, cor,
boca, braços e pernas
sem as quais parece impossível caminhar.
Amor tem nome, tem cor, tem olhos
tem vida, tem endereço
e não se assemelha a nada
a quem Camões chamou de Amor
com todas as maiúsculas,
porque amor assim, impessoal
é sem graça, sem sabor
só serve para análise literária,
e sem vida vai morrer em alguma prova
de saberes inúteis daqueles
a quem nunca coube o amor,
por isso, para eles, o poema sobre o Amor
é sempre inútil, sempre arriscado.
Mas amar é um risco,
que não cabe no inútil poema
onde cabem todas as coisas,
menos o Amor, porque este
se declara e se vive
na intensidade das horas presentes
na ausência das horas de espera.

O mar

O mar(é)
(a)mar(é)
conhecer
o lago azul
de teus olhos.
Se navegar
é preciso
amar também é,
porque viajar
sem amor
não é viajar
é navegar
contra (a)mar(é).

terça-feira, 10 de julho de 2018

Os de sempre

Nós, os de sempre
já não existimos
somos outros
perdemos a individualidade
colamos cacos e sonhos
misturamos bobagens e risos
dores e alegrias.

Os de sempre
não podem mais
ser os mesmos.

O encontro inesperado
criou ex-caminhos bifurcados
que convergiram acidentalmente.

E os de sempre
hoje são fumaça, névoa
não habitam mais os retratos
e das mesas onde as conversas
fluíam, levantaram.

Nós, os de sempre
nos fizemos ausência
e arriscamos novas escritas
talvez novas biografias
tomamos caminhos
sem levar mapas.

Nós, os de sempre
simplesmente acordamos
e havia na realidade
algo que o espelho
não podia responder.

Nós, os de sempre
ainda não sabemos o caminho
mas, daqueles, dos de sempre
a quem sempre se referem
as histórias
se fizeram memória
de que o tempo
registra apenas a ausência.

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...