sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Quando ainda imberbe
descobri meu apreço pelas palavras.
O braço fraco feito graveto
não me deu o luxo de travar
combates com meus inimigos.
Então, muni-me dessas abstrações
desses conceitos vagos
chamados palavras.
Proverbial de sabedoria suburbana
esperei pouco para saber que a palavra
é como flecha disparada,
não volta ao arco 
nem pode ser engolida de volta.
Palavra solta é como vômito
e como ainda resta-em um traço de humano
como cão não posso tragar o que vomitei.
O amor partiu com as palavras
por isso, invejo os cães que latem, não falam,
mas amam com o imprevisto dos amores.
 
Olha a poesia!
Onde?
É mentira!!
Assim é que se dança
a quadrilha.
Mas...e a poesia?
Sumiu como magia
foi engolida pela vida,
tragada pelo cotidiano.
Mas...e a poesia?
Essa cabeça de serpente,
essa namoradeira
que vive entre as gentes
sumiu na curva do rio.
Olha a poesia!!
Onde?
É mentira!!!
Ilusão de poeta novo.
A poesia foi para roça
e você perdeu a carroça.
A poesia é essa bandida
vem...te rouba...te despe...
e ficas olhando para a rua
nua como a lua, tua lua
na porta aberta
da rua um sete um
no beco sem saída.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A princesa muda

À pequena flor do Quênia

A menina escondeu-se na sua carteira escolar. Ocultou-se nas trincheiras de seus dedos. Os livros pesavam como pedras em suas costas. Sabia que não teria uma segunda chance. Os olhos dos colegas a perseguiam como predadores que limavam suas presas no desprezo que sentiam por ela.

Ela quis escrever mas não pôde. Ainda não sabia ler. Sua dor só aumentava. Sabia que em poucos minutos teria de ler um texto que para ela era um verdadeiro enigma. As letras e palavras dançavam um ritmo macabro diante de seus olhos. Acenavam com o inferno. Dor e dilaceração corriam pelas veias da menina.
Havia no colégio de tapera os ares da morte. Nem na sala de aula estava livre. Sentia que a sombra tumular a perseguia desde a semana anterior. Por onde passava, sentia o hálito quente daquele ser disforme a atraí-la com as mãos. Se na rua havia estupradores, se na casa havia o pai e os tios lascivos por seu sexo, na escola havia o professor e o inferno das letras. Não sabia qual condenação pesava mais. Impossível sorrir.
Quis adoecer, ter febre, saltar do penhasco. Não fez nada disso. Foi à escola como quem vai para o matadouro. Vítima que precisa ser imolada. Ovelha negra que não serve ao sacrifício, mas que seria atirada ao suplício de mãos e dentes ávidos por devorá-la.
Passou nesses pensamentos até a hora do intervalo. O professor adiava a dor do fim em todos seus detalhes. Sabia como pressionar com os olhos, insinuar com as mãos. Retardar o sopro de vida que logo recolheria daquela menina, a qual nunca se dignou nem sequer de saber o nome. Vulto de gente. Negra como os demais, como o professor, mas de uma beleza bruta e irritante que sempre se negou ao alfabeto. Isso o professor jamais perdoou.

Comeu seu pedaço de mandioca com uma mistura escura que bebeu no pátio da escola como o condenado que tem direito à última refeição. Ao grito da bedel, caminhou a passos contados, como se quisesse caminhar ao contrário, como se desejasse que seus calcanhares a levassem para casa, onde poderia ver os olhos de mágoa da mãe no antigo retrato escondido debaixo do colchão entre suas míseras riquezas.

Nunca tão curto pedaço de terra pareceu tão longo à menina.

O professor esperava a jovem na porta da sala. Com um safanão arrancou-lhe as primeiras gotas de sangue que inundariam a sala em poucos minutos. O ouvido zumbiu, as carnes tremeram, sentiu o salgado da lágrima escorrer pelo canto da boca e sugou aquelas gotas como o melhor alimento do dia. Tudo girava à sua volta. Os amigos riam, pulavam bestializados, regidos pelas vociferações do professor.

Alguém com um pontapé a colocou em sua cadeira e lhe espalmou frente ao rosto o livro aberto. A história de Sherazade. Nem o mito salvou a menina. 

O velho homem de dentes afiados como um lobo em fim de carreira se arreganharam e soltou a sentença:
-Caros alunos, se ela não conseguir ler, todos têm o direito de bater nessa insignificância até as mãos lhes doerem. Não sem que antes eu solte a primeira paga do castigo. Exijo para mim o primeiro golpe contra essa aberração do Quênia.  

A menina nem chorava mais. Ergueu a cabeça em um gesto altivo, até ali nunca visto. Encarou seu algoz, limpou seu corpo de toda aquela maldita terra a que fora condenada a nascer. Teve nojo dos colegas, dos amiguinhos que há poucos dias pulavam corda com ela. Teve nojo de seus trapos nunca lavados porque a chuva não caíra desde quando havia atingido os cinco anos. Há cinco longos anos usava a mesma túnica.

Levantou sobre suas pernas de flamingo e alçou o voo da liberdade. A cada linha que engasgava nas letras, nas vírgulas, nas palavras que pulava, recebia a alforria deste mundo que nunca a desejou desde o ventre da mãe naquela noite de desavisos,  quando seus pais não resistiram ao doce coito entre as canas e a terra. 
A menina parada em meio à página que lhe girava como um carrossel de serpentes, sentiu novo golpe contra suas costas e a bofetada quente que lhe abriu um rio de sangue no canto da boca. Depois não viu mais nada, seu corpo recebia varadas, socos, pontapés em meio à gritaria insana dos amigos. Aos poucos não ouviu mais o som da vida, apenas um zumbido de abelhas africanas a ecoar em seus ouvidos. Logo sentiu em sua carne macerada pelos pontapés a sensação de doces carícias. Já não sentia dor.

Depois disso, perdeu os sentidos e sua memória foi limpa de toda a sujeira que essa terra lhe havia atirado ao rosto desde quando pisara neste mundo construído por palavras. Desejou apenas ouvir a meiga cantiga de quando fora embalada nos braços por sua mãe, uma mãe distante, refeita de imagens várias, que lhe doaram as pessoas com quem sua progenitora convivera antes da curta existência desta que agora se comprimia contra o chão como uma sola de borracha em dias de calor.

Aos poucos os gritos silenciaram. Não havia mais palavras, não havia mais leitura, apenas um corpo macerado em vermelho e negro no solo do Quênia. Por fim, voltara aos braços de seus antepassados, tão muda quanto à voz que lhe negaram na terra dos homens. Não era mais castigada pelas palavras, ela se voltara toda a seu ser e sua pele reluzia como um vestido de seda negra em noite de festa. 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Ah... a razão dos clowns....
quem precisa dela
quando se tem a loucura?
Só os loucos riem, gozam
vivem, amam e comem
sem os regimes da moda.
A loucura não tem horas,
não bate ponto, não toma vitaminas
antes do almoço
nem se perde em discussões inúteis
do último teórico europeu.
A razão diz o que sou,
mas isso, todos julgam saber.
Só a loucura diz de mim
histórias sem nexo,
que fogem à razão e à lógica
dos amantes infelizes.
A loucura é a porta da felicidade
negada pelo cabresto da razão.
Só quem perdeu a razão
de portas abertas pode ser feliz.
Porque quem goza entre quatro paredes
só procria, não cria.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Uma flor amarela
imitação do sol
em suas luzes
grita diante dos olhos
de fogo de uma criança.
E ela é bela como a flor
amarela em suas pétalas.

Uma flor amarela
grita com sua boca
cheia de dentes amarelos
e uma criança sorri,
ainda sem dentes,
diante da flor que imita o sol.
Não tem cheiro nem sofre
do tempo o mal da efemeridade;
é uma flor de plástico,
mas seu amarelo grita
diante dos olhos de uma criança
e seu sorriso é belo como
as pétalas [de plástico]
de uma flor amarela.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Quando chegaste
como visita apressada
leve de sutilezas disfarçadas
e com teus ares de partida,
fiquei cego ao adeus
que me acenava
o brilho de teus olhos.
Mas não pude enxergar
o inevitável.
O óbvio é demais
para quem julga amar.
No fim das contas,
contra todas as provas,
vivi o que me coube
do tempo da ilusão.
Foste embora muito
antes de partir.
Só eu não via
que precisavas de um porto,
nada mais, em meio à sede,
para descansar teu corpo
e continuar a viagem.
Fiz-me teu porto, tua imagem,
só não esperava pela despedida,
tão certa, tão óbvia, tão conhecida,
e por isso mesmo tão inesperada
como a morte.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Não dê pérolas
aos porcos
diz o ditado
popular
de todas as bocas
e línguas.
Mas, digo eu, não Paulo,
nem o povo e sua boca
enorme:
não dê versos a todos os homens;
alguns são como porcos
não entendem de pérolas
nem de versos.
Chafurde, poeta,
de quatro patas ,
em seu quarto,
as palavras.
Coma a lavagem de seus verbos,
pois tuas palavras
só têm valor
no chiqueiro de teus versos.

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...