terça-feira, 6 de setembro de 2016

SOMOS UM

Veste-me com tua nudez
que me cai tão bem teu corpo.

Amornado em teus seios
esqueceremos que estamos nus.

Tua pele será abrigo ao meu sexo
e diante do Criador estarrecido

não me darei conta de meu corpo nu,
pois estarei guardado sob tua pele.

E quando Ele, por retórica, perguntar:
Onde está a mulher que te dei?

Responderei que estás comigo
e que quem vê a mim, vê a ti,

pois de tua pele me vesti
e teu corpo habita em mim
neste coito de tempos esquecidos.

domingo, 4 de setembro de 2016

A dor do abandono
diante do regresso se apequena.
Somos como cães
quando amamos.
Vivemos da inocência,
desaprendemos horas e dias
e a dilacerante espera na calçada
é um instante de olhar a rua,
que a memória apaga
ao som dos passos
que tanto tardaram
à voz dos lamentos.
Aprendi a estender menos a mão.
Aos muitos prazeres que dei
multiplicaram-se os desprazeres.

Não direi mais: "muito prazer",
não me fizeste gozar [ainda]
nem contigo ri em horas perdidas.

Na chegada evitarei o prazer,
quem sabe ao acenar da despedida
possa dizer do amor que deixaste,

embora seja tarde,
o mais doce e triste e sincero
muito prazer.

Se quiseres, fique mais, é cedo
aqui tens a minha mão aberta
e a tua mão também aberta aí tens.

Para quê o aceno da despedida
se cabe a nós o prazer da chegada
ou a dor da despedida?

sábado, 3 de setembro de 2016

Devolvam minha Olivetti!

A tecnologia é uma maravilha. Achamos tudo no google, o maldito até tenta antecipar e facilitar nossa busca. Mapas enormes como encartes de revista, grandes enciclopédias vermelhas na estante, dicionários grossos, nada disso se faz necessário mais. Uma máquina com alguns terabites de memória, uma conexão rápida com a internet e como diziam no antigo "Casseta e Planeta: seus problemas acabaram! Será?!
E toda essa tecnologia migrou para os Iphones, para os Smartphones e por aí vai. Mas, nasci em uma época que nada disso existia. Ainda tenho escondido e até com uma certa vergonha um diploma do curso de datilografia que fiz quando era pré-adolescente em uma escola pública. Na cidade havia dois lugares que ofereciam esse curso: a sede social da igreja católica e a escola onde estudei. Na época, as máquinas já eram antigas e minha professora suspirava pelas máquinas de datilografar elétricas, que não chegavam e acredito nunca chegaram para suas tão dedicadas aulas.

Parávamos o tectectec incessante dos dedos para corrigir os erros, passávamos errorex e soprávamos para voltar ao ruído infernal de 20 alunos datilografando, cada um mais rápido que o outro. Incrível como o ser humano disputa nas menores coisas. Mas, o sonho era mais tarde prestar o concurso para escrevente do fórum e para isso tínhamos de ser velozes. Em uma cidade pequena ser um homem da lei, mesmo que atrás de uma modesta Olivetti, era subir na vida e ter um certo respeito. Além disso, imaginava-me diante do juiz anotando o depoimento de um bandido perigoso.

Em seguida, as máquinas foram aposentadas e surgiu o computador de mesa. A primeira escola de Informática da cidade oferecia o curso de MsDOS e todos nós olhávamos cobiçosos para os 486. Na época meu irmão ganhou um curso desses e foi fazer. Ele já trabalhava em um escritório e eu morria de curiosidade de ver meu irmão digitando num bicho daqueles, achava-o até importante quando pegava sua barraforte  vermelha e rumava para o curso da Microcamp.

De repente, entrei na faculdade de Letras e um professor pediu um trabalho: digitado. Nunca havia usado um computador, vira na mesa de pessoas ricas e de escolas de informática, mas o dinheiro não dava para fazer o curso. Meu irmão mesmo não pôde avançar porque a escola dava a bolsa apenas para o nível inciante. Para sorte minha, um japonês chamado Marcelino levou-me ao laboratório de informática e me explicou que DOS não existia mais, que as máquinas iniciavam normalmente e que o trabalho se digitava em WORD. Com a aula de uma hora uso o computador até hoje. Perdi muitos trabalhos no começo, errei muito, fiquei vermelho, irritado, chorei diante da tela, até que tornei-me um usuário mediano das tecnologias da Microsoft.

No entanto, aceleremos os fatos. Não tive os primeiros tijolos que chamavam celular e mais pareciam um carrinho à flexão, não tive ICq porque não tinha computador, fui ter tardiamente Messenger e que sinceramente acho ainda hoje melhor que o Skype, mas o finado se foi. Agora Inês é morta e, sinceramente, depois do Whatsapp nunca mais acessei o skype ou o messenger do facebook.

Porém, para quem vivia de errorex de pincelzinho para economizar e não comprava o corretor de fita que era mais caro, evoluí bastante. Os problemas, entretanto, só se tornam mais complexos. Não preciso mais de um corretor líquido e falo a verdade, menos ainda do corretor do google. Haja ignorância desse maldito.

Quem nunca se irou diante de uma mensagem que enviou e ao olhar a tela o intrometido mudou a digitação porque achava que você estava errado? Uma máquina querendo corrigir meu cérebro, para mim isso é demais. Digito três, quatro vezes a mesma palavra para que ele entenda que quem manda sou eu. Não quero sugestões de ortografia ou substantivos malucos que ele insiste em digitar no meu lugar.

Os problemas aumentam quando conjugamos os verbos. O corretor do google é burro para verbos, seu vocabulário é limitado e irritantemente coloquial. Será que é um corretor feito para a América Latina e calcularam um número de palavras bem abaixo de um estudante médio? Preconceitos do senhor Bill Gates.

A tecnologia nos fez esquizofrênicos. Brigamos com a tela do computador, com o teclado do Whatsapp, temos medo de acessar o WiFi do barzinho, porque ele vai denunciar no facebook onde estamos e ao final da noite haverá mil curtidas sobre nossa mísera vida pública. Acessamos um mapa e ele quer a nossa permissão para usar a localização atual. E onde fica nossa rebeldia? O direito de dizer nem minha mãe sabe onde estou? Brigamos com o GPS, chamamos ele de burro, discutimos com a voz de uma mulher que nunca vimos. Antes era mais fácil, brigávamos com a esposa e depois de 100 km na direção errada e emburrados admitíamos nosso fracasso e parávamos em um posto de gasolina, humilhados pela inteligência feminina.

Só tenho algo a dizer: que saudades de minha professora de datilografia e de uma época em que ser feliz era ter um cargo de escrevente no fórum da cidade. Por favor, desliguem o WiFi e devolvam minha Olivetti.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O que é a vida
senão um até breve
nessa discordância
enorme do universo.
Não me vejo no espelho
o reflexo é de uma sombra,
de um ser informe,
substância negra em tela
transparente a perder-se
no infinito.

Com o tempo 
as manchas aumentam,
o espelho enferruja, 
as vistas diminuem
e a ausência do rosto efebo
fere o reflexo com rugas e talhos,
marcas de faca n'alma,
que expõem o mapa 
sobre minha face.

Este não sou eu, 
minha face é do passado
esse ser que me irrita no reflexo
é mágoa guardada, 
é ódio retido.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Minha amizade com Susy Delgado

No ano passado tive o prazer de ir a Asunción lançar, na Feira do Livro Capel, uma tradução do livro La sangre florecida, de Susy Delgado. Confesso que as narrativas da protagonista Maria'i me encantaram desde a primeira leitura. E em um desses eventos acadêmicos, conheci a poeta pessoalmente. Falei com ela e, timidamente ainda, disse que gostaria de traduzir o livro para o português. Para espanto meu, Susy aceitou e, a partir desse dia, começamos a trocar nossos e-mails, amizades de facebook, ligações.

No dia do lançamento do livro me ocorreu que minha amizade com Susy começara na infância e que traduzir suas narrativas me reconciliavam com o Paraguai. Não um Paraguai verdadeiro, geográfico, de compras e cuias de tereré; definitivamente, não. Porém, com um Paraguai muito distante, mágico, de uma infância na qual eu nem sabia que existia a língua espanhola e quando o guarani era apenas uma língua engrolada que meu avô desembestava a falar quando bebia.

Após a morte de minha avó, com quem meu avô teve uma relação nada pacífica de décadas, o velho deu de beber e muito. Chegava trançando as pernas. Nessa época, meu irmão, minha mãe e meu pai nos mudamos para a casa de meus avós maternos. A pobreza e a bebida não nos deixou solução a não ser pedir arrego na casa dos herdeiros.

Ali provamos o inferno de viver em família. Mas, às vezes, meu avô chegava bêbado e sentimental, sentava, chamava os netos e rememorava na sala de chão vermelho sua juventude no exército. O serviço militar, sua farda, os serviços prestados na fronteira com o Paraguai. Suponho que pelas regiões do Mato Grosso do Sul, porque foi nessas bandas que ele conheceu a minha avó e repetindo uma história que está mais no imaginário do povo do que é uma realidade, também disse que a laçou no meio do mato como touro bravo.

Nunca soubemos ao certo o motivo. No entanto, meu avô fora expulso do exército e por anos se virou como meieiro em fazendas no interior do Estado de São Paulo. A bebida, porém, reavivava parte dessa memória gloriosa, que o permitia até mesmo, agora com minha avó morta, revelar o que todos sabiam e não ousavam falar: minha avó era uma indiona brava, a parte do brava os filhos e netos sofreram na pele, a índia foi apenas mais um segredo de família, que se quebra ao seu portador descer à terra. 

Enfim, com o cuidado de quem guarda um tesouro, meu avô tirava de uma pequena caixinha de sapatos, dessas de criança, uma nota de 50 mil guaranis. Era a prova que ele tinha que conhecera o Paraguai e que aprendera a língua falada pelos índios. Na verdade, não tenho certeza do valor da nota, na época não conhecia números, nem ao menos dinheiro. Então, passo a história como me foi contada, com todas suas imprecisões e ignorâncias.  

E com essa nota na mão, meu avô embrulhava a língua, falava por horas um idioma que nada entendíamos e naqueles momentos, aquele senhor cansado e bêbado, funcionário braçal da prefeitura de Palmital, se tornava importante para nós: nosso avô fala uma língua estrangeira, nosso avô falava guarani.

Outra prova, mas essa não da língua ou do Paraguai, era o enorme projétil de mosquetão que também habitava a caixinha de sapatos. Com esses dois instrumentos na mão, meu avô virava o maior contador de histórias que eu já vi e nunca entendi nada, afinal não sabia guarani. Hoje, mesmo que soubesse, não entenderia nada daquele delírio bêbado, pois nunca falou mais do que um português simples dos homens do interior. 

Anos depois, com a morte de meu avô, a caixinha foi desaparecendo aos poucos: primeiro a nota de 50 mil guaranis; em seguida o projétil, alguém falara para minha mãe que aquilo poderia explodir e ela com medo atirou-o na privada, daquelas de cordinha ainda e que o cano dava em uma enorme fossa no fundo do quintal.

Ao voltar de Asunción, deixei em Ciudad del Este todas as notas de guarani que tinha no bolso. Trouxe comigo livros de autores paraguaios, algumas amizades e um país real ou pelo menos mais palpável em minha mente. Por décadas, o Paraguai foi para mim uma nota de 50 mil guaranis e um projétil numa caixinha de sapatos. Mas, estive em Asunción, ao lado de Susy Delgado, reconciliando-me com meu passado, com meu Paraguai inventado, com minha infância perdida. Falando espanhol com meus irmãos latino-americanos, pagando a dívida com meu avô, entendendo uma ou outra palavra em guarani e encantado com uma literatura que me fez navegar pela ilha sem mar, por um mundo de histórias que me contou Susy Delgado. 

Aguyjevete, Susy!


  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...