terça-feira, 30 de agosto de 2016

Envelhece-se todos os dias,
mas também quando pedimos
que a vida dure mais que a morte
e a Eternidade parece uma estrada próxima.
Envelhece-se quando a taça de vinho
de prazer, vira culpa e nos preocupamos
com o mal mais do que com a doce
felicidade da embriaguez. 
Envelhece-se quando o relógio 
nos aprisiona e vemos no tempo tão somente
as horas perdidas e nunca as que ganhamos.
Envelhece-se quando contamos as páginas
que faltam para acabar um livro,
quando o sexo perde a potência renovadora
e a amizade se sobrepõe aos corpos.
Envelhece-se quando o tempo
se torna uma questão de vida ou morte
e achamos que as horas passam rápido demais.
Envelhece-se quando levantar cedo 
é prioridade e os atrasos nos tiram o humor.
Envelhece-se quando os dias da semana
passam a marcar rituais e temos de deitar
cedo porque está tarde.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A minha faca
é minha palavra,
corta afiada
e em mãos bem postas
já fez muita gente
sangrar e recuar.
A lâmina de minhas sílabas
silva como línguas de mil serpentes;
nem por isso deixei de ter inimigos,
tenho-os bem cultivados em meu jardim
e como crescem vistosos aos olhos
esperando a hora da colheita.
O mundo é grande,
mas suas dores
cabem nos dedos
das mãos.

O mundo é grande,
mas seus deuses
debatem as mesmas
e velhas questões.

O mundo é grande,
mas o homem sonha
com a única mulher.

O mundo é grande,
mas a mulher sonha
com um homem
que a compreenda.

O mundo é grande,
mas a corrupção
nasce em cada casa.

O mundo é grande,
mas a fome se repete
por pão, justiça, fé, vida e morte.

O mundo é grande,
mas o homem é pequeno
demais para entender
a rotação e a translação
fora de seu umbigo.

O desdém do amor,
da vida, do ódio...
vivo de descaminhos
minha rota não leva
a lugar algum
que interesse ao viandante.
Despossuído de dons,
recebi o dote das desavenças
e faço delas flor e espada.
Flor para os vencidos
e espada para os destemidos.
Para quem veio sem caminho
certo qualquer estrada é destino.

O MORTO

O morto está ali
[quem se importa?]
estatelado
em nossa sala,
achatado pela tela da tevê.

Ninguém
chora o morto,
[e daí?]
indigente
é uma notícia
de jornal 
no aconchego
de nossos lares.

O morto está ali
[quem se importa?]
no close da câmera,
mas não incomodem...
uma família ceia
e sua santa paz
é inexoravelmente bela.

O morto está ali
[quem se importa?]
em sua crua invisibilidade
e debatemos a violência
de nosso imenso país.

- Que descanse em paz!
- Quem?
- O morto!
[quem se importa?]
- E todo digam:
Amém!




domingo, 28 de agosto de 2016

Ainda somos aqueles velhos canibais

Nunca sabemos por que cargas d'água a memória puxa algum fio solto do novelo e nos leva a algum ponto do passado. O fato é que mal acordamos, pensamos no acontecido. Terá sido o cheiro do café, um comentário de facebook, uma rancor antigo, que julgávamos esquecido, um episódio banal como lavar as louças? A questão é que ali está a memória a girar com seus ponteiros diante de nossos olhos, avisando que é hora de lembrar.

Há pouco tempo, poderia ser no tempo do rei, ou do era uma vez, mas não é. Faz pouco tempo, no semestre que passou. (Maldita mania que nós professores adquirimos de dividir a vida em bimestres ou semestres). Estava com meus alunos começando um seminário - e aqui o gerúndio é verdadeiro - quando assoma pela porta da sala um rapaz alto, que se apresenta como Paul Cabannes, um francês, que de acordo com ele, não realizaria aquela invasão se fosse na França, os professores não o perdoariam. Mas um professor ali, um amigo seu talvez, disse que no Brasil não tem disso e que ele podia invadir minha aula, interromper alunos primeiro anistas, aterrorizados com a ideia de comentar um poema, para divulgar seu telefone para dar aulas vip de língua francesa.  

Emprestou meu pincel atômico, o qual deixou aberto e sobre o suporte de apoio da lousa, divulgou seu curso e saiu sorridente e orgulhoso de sua falta de educação tão recentemente aprendida com seu novo amigo brasileiro, um candidato a professor universitário. Claro, seu sorriso denunciava que sentia orgulho de ser um europeu em meio a quase índios, negros, terceiro mundistas, que desgraçadamente - assim dizem os engenheiros -  estão fazendo um curso de humanas.

Naquele momento lembrei-me de João Ubaldo  e seu livro Viva o povo brasileiro!, e sonhei em ser canibal, fazer como aquele índio do romance que descobrira que a carne dos holandeses era mais adocicada que a dos franceses e prendê-lo. Dá-lo às meninas brasileiras afoitas por um estrangeiro, como se boca, olhos e carne tivesse alguma diferença no mundo todo. Mas não, sorri com a dentada de pré-avó macaca de Lobato e reiniciei com algum custo minha aula. 

Mas, como a memória não pára, fiquei a pensar quem ensinara aquele francês a não ter educação no Brasil. Espanta-me como ensinamos facilmente o que não presta às pessoas e como elas aprendem rapidamente, afinal que ser humano não folga com uma mamata. 

Rapidamente, a memória puxou mais outro fio solto do novelo e me transportou mais rápido que "De volta ao futuro" - as referências começam a ficar antigas - para um episódio de um diálogo bizarro tido em tom douto de quem acaba de entrar no doutorado e está deslumbrado com suas leituras. Fato compreensível, mas não perdoável. O sujeito, amigo do francês, agora que vocês já conhecem Paul, afirmava em alto e bom som que Cortázar e Borges eram franceses, pois é, pasmem hermanos, duas grandes vozes da América Latina, franceses. Para mim que dei aula de Literatura Hispânica soou à provocação ou à ignorância gritante. Não respondi e o sujeito saiu achando que havia arrasado comigo na discussão. Responda a um néscio e fique como ele, Salomão já dizia isso. Homem sábio, homem de muitas mulheres, terá inspirado nossos índios? Não sei e nunca vamos saber. 

Mas, infelizmente, ainda somos aqueles velhos canibais, encantamo-nos com as escolas de línguas que contrabandeiam professores nativos, temos orgulho de falar aos nossos amigos: meu professor é nativo; vejam só quem diria isso um dia, o caminho inverteu. Hoje trazemos nativos para ensinar os nativos de Cabral. O pessoal se encanta com as mulheres da terra, com a caipirinha, a cerveja gelada, o forró e aprende a falta de educação nos primeiros dias. 

Aula interrompida, vida que segue, mas que inveja de João Ubaldo. Viva o povo brasileiro!!! Viva Macunaíma, o herói de nossa gente! Viva Iracema, que se não trouxe o carnaval, deixou o cauim e a nudez do povo brasileiro. 

sábado, 27 de agosto de 2016

Amanhã será domingo

Amanhã será domingo. Impossível não pensar neste fatídico dia. Desde que amanhece o sábado, somos tomados por uma insana força de aproveitar cada segundo. Engolimos as horas no relógio. Queremos que o tempo passe mais lento. Afinal, sábado é o primeiro dia do início do fim de semana. E por incrível que pareça o único: não esqueçamos que domingo é o primeiro dia de mais outros seis.

Talvez decorra desse sentimento oculto o fato de domingo ser sempre um dia angustiante para muitas pessoas. Para piorar é a véspera da segunda, a tão temida segunda-feira, dia de encarar o chefe, o colega de trabalho invejoso ou indesejado. Até porque em nossa atual situação ter inveja de qualquer brasileiro que seja é burrice.

Mas ali está a segunda-feira, acenando-nos mal nasce o domingo. E o mesmo ritual se inicia. Alguns vão à missa, outros à escola bíblica. Rituais espirituais que encurtam as horas do domingo, mas reduzem o sentimento de solidão que somos tomados nesse dia. 

Logo pela manhã vamos à padaria. No caminho, os açougues tomam as calçadas com seus fornos cheios de frangos girando em espetos e outras churrasqueiras com uma infinidade de carne para saciar a sede humana de sangue, agora dourada no carvão e com um leve tempero. Compramos maionese, umas cervejas ou vinho, colocamos o macarrão no fogo e já é meio dia perdido.

Podia ser diferente, mas não é. Os vizinhos colocam o som alto, gritam, riem, tomam cervejas e cantam desafinadamente as músicas mais terríveis de nosso imaginário local. Pensar é proibido. A bebedeira retarda os sentidos e faz segunda parecer mais distante. 

Às 15h00 a depressão aumenta. Os parentes chatos foram embora, os amigos após dizerem algumas verdades incentivados pelo álcool ficam envergonhados e voltam para casa, em geral, discutindo no carro como pedir desculpas no dia seguinte.

Às 16h00 horas os homens ainda tem um alento: futebol na TV. Só estragado pelo humor feminino que se vê desprovido de qualquer programação que atenda suas necessidades. É nossa sociedade ainda machista. O homem trabalhou a semana toda e agora merece o descanso. Então: futebol, paixão nacional, destruição dos lares felizes. 

Às 18h00 o baixo astral é geral. Aparece um ex-gordo ridículo na TV, cheio de grosserias que comanda um programa dominical de aberrações, que são aturadas até chegar o momento das "vídeo-cassetadas", quando as pessoas mostram seu lado sórdido, rindo de crianças que caem, velhinhos bêbados ou gatos que se espantam diante do espelho.

Para piorar, o único passeio que resta é a farmácia. Saímos comprar aquela neosaldina, um gastrol, aquela fralda que acabou, o anticoncepcional para evitar que a população aumente e que a diversão vire pesadelo, aquela camisinha de sabor ainda na esperança de um ato mais ousado depois de anos de casamento.

Mas amanhã é domingo. Inevitavelmente domingo. As rádios vão colocar músicas da década de 80, velhos rocks, alguns sertanejos antigos, algum programa da jovem guarda e samba, muito samba e pagode, como se todos nós nos estivéssemos unidos sob esse gosto musical. 

Enfim, realmente o tom é de nostalgia, um sabor antigo, uma saudade que nos aperta o peito, que nos deixa sem palavras, como se tivéssemos perdido alguém; e com esse nó na garganta vamos dormir, antes que comece o "domingo maior" ou que Silvio Santos faça mais um aviãozinho com uma nota de 50 reais.

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...