terça-feira, 23 de agosto de 2016

Rio sem margens

O rio [sic] são essas águas estranhas
que nos invadem pelos fundos
e nos submergem corpo e alma
em uma sensualidade líquida,
uterina, todo água morna.
Nostalgia de tempos imemoráveis
mistério doce latente, presente
que se condensa em braços, abraços
nos toma pelos lados, pernas, cabeça...
Inevitável submergir
impossível não se afogar.
Rio é isso, esse correr mudo.
Rio é tudo quanto nos afoga
é tudo quanto nos faz navegar.

sábado, 20 de agosto de 2016

Os balões

A menina descansava no colo do pai, que passeava insistentemente e com certa impaciência, de um lado para o outro, em frente à mãe que mastigava lentamente a comida. Ali estava o momento dela, braços livres, descansados da labuta diária de segurar e ninar sua filha. Alongava o tempo de cada mastigada, cada dentada era um ato de preguiça altamente calculado, como se se vingasse do homem que estava ali diante dela e que a fizera mãe. Enquanto comia, sentia que recuperava sua identidade, tinha um nome, uma profissão, não sofria o apagamento das horas do mamã, que se tornaria mãe e, por fim, definitivamente seu nome se converteria em um amontoado de letras no RG. 
Cansado de esperar aquela prática bovina, que incluía os olhos de uma plácida toura, o pai mudou a rota dos passos. Fingia mostrar interesse pela pequena e até ensaiava uma falas com a bebê, porém com medo de ser tomado por trouxa diante dos olhos expectantes que se distribuíam pelas mesas do restaurante. Imaginou que aquele passeio um dia seria feito de mãos dadas e que ao final do corredor de olhos haveria um homem a esperar pela filha.
Quase se desesperou, mas não era para tanto. Não tinha a fibra das raivas longas, nem as forças para desperdiçar em pensamentos que poderia adiar por alguns anos. O genro ainda não existia e se existisse deveria andar em fraldas, cagando e mijando como sua pequena. Nada que pudesse atentar contra esse reinado tão certo e tão efêmero que começara a descobrir naquele pacotinho de olhos abertos que tinha em seus braços. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Quero ser florista

Não cabem em medidas disponíveis
nos dicionários humanos
o tamanho de um sonho
ou de uma frustração.
Ela queria ser florista
e chorou o preço das pétalas.
Não contou a ninguém
sobre sua desilusão.
De manhã encontraram-na
gentilmente enforcada.
E nos seus olhos o doce sorriso
com a certeza de que terá todas as flores
do mundo a cobrir seu corpo de jardim.

Um Amor para a vida inteira
não cabe no breve espaço
do senão, nem do talvez,
muito menos do quem sabe.
Surge Pequeno, quase imperceptível
[silencioso, breve, inconsútil].
Mas...um dia...
[cumprido o prazo estabelecido pelas luas]
brota altissonante das entranhas
e se faz insubstituível como o Sopro.
Não sabemos de onde vem nem para onde vai;
primeiro em pequenos giros, depois em saltos
fugas e viagens cada vez mais longas.
Mas nunca deixa de ser Amor.
Partirá... é certo, assim como voltará...,
porque Amor não se substitui
nem perde seu lugar, mesmo que o tempo
da partida se perca na contagem dos dias
e a estadia seja breve demais
para caber nos dedos das mãos,
Amor tem espaço cativo, ocupa a primeira fila
e sempre dá aos olhos a luz que faltava.
- Sim, eu estive fora
[de mim...do ar...]
Inevitavelmente, ausentei-me
do tédio das conversas,
da banalidade dos encontros
talvez dos amores, do sexo
[quem sabe].
Mas, estava ali [oculto]
nunca deixei de estar
[essa presença muda]
sentado diante do Nada
de mim mesmo.
O oco do universo é meu ser
vazio como o mundo onde nasci,
escasso de ideias, rude de palavras.
Duro, de uma dureza persistente,
caipira, quase asnática,
capaz de subir morros,
sou feito de uma teimosia chata.
A meu modo, não deixo de ser
um centauro, nesse trote lento,
solitário.

sábado, 13 de agosto de 2016

Pássaro o inverno
pássaro o verão,
pássaro as estações
e o tempo não pássaro
de passear pela vida.
Eu passarava por teu caminho
mas...de novo...tive de passarar.
Minhas asas não aprenderam
a gostar de gaiolas.
Por isso, passarei a primavera
a passarar pelos ares.
Pássaro breve, leve,
passarinho em busca de ninho.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Ainda somos aquelas velhas putas

América Latina
América Latrina.
Os rios que te cortam
são fezes do mundo.
Nossas universidades
têm papagaios gaios.
Gândavo tinha razão
em aqui se plantando
tudo dá, menos inteligência.
Nossos críticos papagueiam
franceses, ingleses e alemães.
Nosso linguistas são gaios
papagaios que leem Chomsky...Saussure
e acreditam que Bakhtin e Focault
são linguistas.... istas... istas.
Nada produzimos, papagueamos
em nossas faculdades-gaiolas
onde papagaios gaios felizes
becados e de diplomas na mão, meu irmão,
repetem  as velhas teorias da Europa.
Não deixamos de ser, pasmem, ainda hoje
a puta dos colonizadores.
Fechemos com nosso irmão Macunaíma,
sobrinho espiritual de Judas.
"Ai que preguiça! Tem mais não!"


  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...