quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Amor que é Amor, dói.
Dói de falta, dói de medo
dói porque dói, sem ter explicação.
Amor que é Amor, dói.
Dói de doer porque a dor
sublima o medo de perder.
Mas, dói sem saber, sem ter porquê,
dói de dó, de danação,
dói porque é Amor
e há o temor
de perder, sempre de perder,
aquilo que é o Amor.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Livro das ausências

No ano de tua ausência
conheci minha dor.
Imitei os amantes
olhei pela janela
[nada vi que outros olhos não vissem]
mas o vazio do horizonte
rebentava em meu peito
em ausências tempestivas.
Senti-me doente, fora de mim
certo de que a ausência
levara consigo uma parte de meu corpo.
E senti-me só, de uma solidão
indizível, somente capaz
de entender aqueles que sofrem
a dor das ausências incessantes.
Chove, mas não é por consideração a mim
é tão somente o breve mês das águas
que chegou indiferente à dor ou à tristeza
daquele vazio deixado pela ausência.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A vida em desregramentos

A regra não aceita o desvio
exige o padrão absoluto
dos pensamentos retos, nunca indiretos
dos itens contratuais entre os homens.
Mas [...] rompi os contratos, quebrei
as alianças arranhadas pelo tempo.
As janelas de minha casa encenam
mosaicos de santos quebrados,
rotos, rasgados em sua estranha
virgindade das adorações estrábicas.
Profanei as expectativas alheias
com a mesma atitude santa
dos crentes diante da cerimônia
do corpo e do sangue, preferindo
meu cálice ao da inalcançável
promessa para as almas da regra.
O meu caminho não é largo,
tampouco estreito ao ponto de não
aceitar o vale de sinuosidades
das rotas estabelecidas para a viagem.
Sou assim, filho de Raabe
disposto a abrir as portas
para a estrangeira e fazer de meu canto
coito de espias e andarilhos.
Por descaminhos e na arte das desregras
pintei meu calvário e também
soube, entre quedas, carregar minha cruz.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

De que servem os retratos
os autorretratos, os porta-retratos?
Esses rostos silenciosos, de gargalhadas mudas
que se opõem às imagens austeras pintadas dos avós
pendurados na parede da sala [ou no lustre?]
como se espiassem os netos e seus idílios?
Fomos engolidos por uma câmera digital
sequestraram nossas raras emoções de felicidade
e nem posso chorar de saudades [ou rir?]
diante de tanta gente morta
nos seus caixões de vidros sobre
o aparador de madeira que recebe as visitas
desatentas ao meu apartamento de baças luzes.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Minha prima tem 47 anos
amputou metade dos dois pés
tem 47 anos e tem diabetes.
Ninguém a consola
ela não se consola.
Tem 47 anos e metade dos pés
amputados sem chegar a lugar nenhum.
Não teve filhos, não terá filhos
não deixará ao SUS mais um diabético,
sente-se feliz porque tem 47 anos,
mesmo depois de seu pai tê-la
matado recém-nascida só
para vender um cavalo e fugir ....
não a cavalo, mas de trem...
oqueé-quetem-oqueé-quetem-oqueé-quetem.


O que é o Ano Novo?
Não tenho nada contigo.
Não te conheço, nunca te vi
e por que devo depositar em ti
minhas vagas e repetidas esperanças?
Serão os fracassos do ano anterior?
A insuficiência dos doze meses
para realizar todos meus planos?
Mas aí vem o Ano Novo, 
não espera, tem pressa,
atirando pela janela o Ano Velho.
Será bom para uns e cruel para outros,
mas não posso impedi-lo de chegar
está às portas e bate na sua terna
insistência de entrar tarde da noite
com a promessa de ser melhor
do que o ano que passou.
Não te conheço, mas sinto calmamente
nessa dor que não cessa que terei
de viver com ele mais doze meses.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Arquivo

Abri as gavetas
perambulei pelos armários
respirei o pó da memória
em todas suas partículas.
Uma foto pendia da parede
destroços de um passado
se amontoavam diante
de meus olhos turvos.
Soube, então, que havia restos
de mim naquela casa,
mas não podia juntá-los.
Estavam gastos demais
e quando os vesti
percebi meu eu renegá-los.
Era eu ainda, mas um eu
distante, apagado, uma sombra
que habitava o arquivo da memória.

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...