quinta-feira, 5 de novembro de 2015


O passado é a ausência presente
contemplo estes porta-retratos mortos,
mas como doem em sua estaticidade.
Grito diante dessas imagens,
que mudas, zombam de minha aflição.
O passado, essa porta aberta às definitivas ações
olha-me inexorável do alto de seu orgulho
de ser e apenas ser o que é definitivamente.
Carrego no alforje porções de passado
e invejo a leveza das doces, suaves amnésias
que quase flutuam no tempo presente.
Felizes dos que viram, viveram e esqueceram
porque deles é o reino dos céus. Amém!!!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Ainda tenho em mim
aquele Manuel Bandeira
quando a infância era só
"café com pão, café com pão".

Trago debaixo de meu braço
aquele volume de Drummond
das palavras mágicas e a constatação
da vida besta, meu Deus!!!

No espelho pela manhã
confundi meu rosto com o de Cecília
e coloquei minhas mãos frias
entre as conchas de suas mãos quentes.

Tive a certeza de Vinicius
de seja eterno enquanto dure
e beijei teus olhos como se fosse
a última vez do operário de Chico.

Eu, esse obreiro das palavras
só sabia questionar: E agora, José?
A vida é esse cotidiano dos continuamente.


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Poesia...

Abandono-me a ti
solidão inexorável
das palavras mudas,
templo das imagens obcecadas.
Sinto a tua dependência
no meu gesto de calar
de me encerrar nessas caixas
a que chamo versos.
Não vejo o mundo fora de ti
acomodo-me à tua geografia sinuosa
e acompanho em suaves curvas
o destino torto que me legou
na herança das palavras soltas
o baile verbal do mundo,
onde me encaixei nas entrelinhas
e quase mudo aprendi a sussurrar
palavras, frases orações lúdicas,
sintaxes que não me conciliaram
com essa realidade chamada vida.


domingo, 18 de outubro de 2015

Estar só [...] a dose mínima
da porção de mim que gira
no carrossel das lembranças
traz a náusea dos fatos passados
que cavalgam espetados
no giro incessante do tempo.
Na roda da repetição
não respiro os mesmo ares,
só os fatos rejuvenescem
presentificam-se, alimentando
a dor do instante monumental
da sensação do tempo presente.
O carrossel da vida não cessa
somos atirados sobre seus cavalinhos
e giramos até encerrar o tempo
desse passeio pelo parquinho da vida.
Infelizmente, as pernas são curtas
e não posso descer antes do tempo,
estou à mercê do funcionário,
que desatento, olha o relógio
contando os minutos para desligar
a chave e encerrar o incessante giro
das catracas que movem a vida
daquelas pernas curtas que sonham
ser um cavaleiro e não percebem ainda
que lhes fogem o tempo e o caminho.

Decomposto,
o resto de mim,
ainda sou eu.
Pensei que o pó
me libertaria
dessa imagem 
que faço de mim.
Mas inaugurou
a dura eternidade,
a que me condenam
as religiões inconformadas
com o vazio.
Os sacerdotes me perdoem
mas ninguém me perguntou
se gostaria de ser eterno.
Aprendi a gozar a fugaz
ideia do vazio.
A ausência do tempo
conforta com mãos macias
e curam as feridas da eternidade.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Na ausência de teu corpo
velo fotos no retrato
a ausência se pendura
no fio da memória
e incomoda como uma
faca cravada no peito.
Essa sensação que não termina
a percepção de que não é o fim
alonga a dor incurável da ausência. 
Se a memória é do passado
por que essa dor é do presente?

Soube que era um rato
tive a sensação de ser um rato.

Preso na ratoeira da vida
fui pego em flagrante
roendo retratos de uma
história inútil. 

As pessoas não gostam de ratos
sou um rato na ratoeira,
mas meus olhos congelados
ainda incomodam os que passam.

E agora todos se abaixam
para ver os olhos do rato.

Estou no centro do retrato
a ratoeira é um templo.

O busto no oratório é o meu
e como rato sou adorado.


  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...