terça-feira, 6 de outubro de 2015

A dor de ser eu
não é maior 
do que a dor
de ser Outro.

O Outro que me dói
que me arrebata
é de ter um corpo
como limite do meu eu.

Meu fracasso:
sempre ser eu
nunca aprendi a ser o Outro.

Esbarrei em fronteiras
encontrei as trincheiras
e como sou somente eu
abandonei o campo de batalha.


Ah... teu corpo
o ritual das horas
a via crucis do desejo
a umidade rasa
dos naufrágios. 

Os pássaros de agouro
nunca trazem boas notícias
por isso o clima negro
que cerca meu dias
lembra o piado que 
inaugurou meu primeiro
choro no mundo visível.

E aí surgiu teu corpo
com a promessa das delícias.
E sobre ele pousou o pássaro
aquele mesmo que me recebeu
no mundo com o canto.

Soube ali que começava
a guerra florida
e só me restava iniludivelmente 
"la noche boca arriba".


Impossível o amor
essa palavra irascível
o ódio contido em doce conluio
de um par de inimigos
que dividem a mesma cama.

Impossível o amor
essa tragédia cristã
na qual os casais se crucificam
pelas manhãs entre xícaras.

Impossível o amor 
empacotado em reality shows
e pacotes de canais privados
que alentam os sonhos da classe média.

Impossível o amor
essa palavra antiga
falha da criação quando
o mundo ainda era verbo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Não faça versos,
faça sexo.
Essa masturbação
de palavras
nunca encheu
uma cama.
Por isso, todo poeta
é solitário
otário, vário,
em seu desvario diário.
Não faça versos,
faça sexo.
O gozo
ao menos
é real.
Mesmo que fugaz
preenche de adeuses
esse longo ensaio da
vida em se despedir
do mundo.
Não faça versos,
faça sexo
que a morte
como noiva
é ilusão de poeta.
Não faça versos,
faça sexo
porque na campa fria
ninguém deita acompanhado.

Quero o poema que reúna todas as pessoas do mundo
alegres e tristes, negros e brancos, pardos e amarelos,
todas unidas no encadeamento dos versos
de mãos dadas, livres de conceitos e preconceitos
que nos atam em celas todos os dias.
Quero o poema liberdade, livre de regras
cheio de desejos, de sonhos, prenhe de vida
capaz de encher as pessoas e suas almas
com o sentimento de poesia que me inunda.
Quero o poema que transborde as barreiras
exceda as margens estabelecidas entre o mar
e o limite das areias da praia morna.
Assim, quero o poema. Sem regras, livre
para ser poesia, dono de si, de mãos abertas
sempre pronto a afagar os versos ondulados
de um corpo nu que salta entre as ondas do mar.

Vi um pássaro da janela de meu apartamento
não era belo, era desprovido de encanto, feio.
Era um filhote, não se pode dizer que era
um passarinho desses de se pôr na palma da mão.
Não estava implume, mas ainda lhe restava
uma penugem branca sobre as penas negras.
Seu bico era longo, adunco, cravado entre
um par de olhos negros amedrontados.
Provavelmente caíra do ninho e sozinho
tinha receio de mim que o olhava.
Ficamos nesse olhar silencioso dias.
Pela manhã abro a janela e vejo
no telhado da garagem meu pássaro.
Olho para ele e ele para mim
irmanamo-nos nesse olhar negro e sombrio.
Hoje abri a janela e não o encontrei
meu pássaro voou ou morreu, não sei.
E só restou o vazio daqueles olhos negros
daquele urubu soturno e solitário com quem
compartilhava as primeiras horas da manhã.




Da série Haicais

Ensaio para o fim

Surge na mente uma quimera
ainda primavera
no outono das dignas eras.


Promessas

Quem nunca de si por si
sofreu da ilusão
e prometeu ficar só?

Sedução

Encompridei da conversa
o ritmo dos lábios
fiz a ponte entre nós dois.



  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...