sexta-feira, 18 de setembro de 2015

não me abra os braços
abra-me as pernas
essas margens que
levam ao leito macio
e morno dessa maternidade
incestuosa que é toda mulher
essa cálida, morna
recompensa do penoso dia,
que se gesta no desejo
e falece no negro gozo
o corpo que me deu a vida
não é o mesmo que me dá a morte
assim, persigo e sigo nos mergulhos
entre as pernas
certo de que no gozo
que se escorre
nasço e morro
todas as noites
nesse balbucio cio.

Via crucis da inocência

A menina canta
em pé, no ônibus.
A menina canta
não percebe o calor
nem transita pelos olhares.
Com os fones de ouvido
a menina canta
crucificada na coluna,
agarrada às barras do coletivo
equilibra-se numa nau estranha.
A menina canta uma cantiga
quase muda, seus lábios
mexem ao som de uma melodia.
A menina canta despercebida
de sua marca de mulher
alheia à fenda que
lhe abrirão no corpo
que inaugurará seu abismo
e sua derrocada da cruz
onde canta feliz, crucificada
às barras do coletivo.
E o Cristo, do alto do Corcovado,
nem espreita, alheio à marca
de mulher que começa a se desenhar
nessa via crucis da inocência
que se equilibra em um coletivo
a 60km nas ruas de Botafogo.

sábado, 12 de setembro de 2015

Tertúlia a dois

Compuseram à luz da lua
versos estranhos e abusados
comovidos pelo álcool.
Pela embriaguez dos olhares
os versos volatilizaram o ambiente
e deram ao céu e às estrelas
um véu nupcial tendo a lua
por abajur de uma cena pintada
no calçadão, de madrugada,
entre dois boêmios abalados
pelas doses de conhaque.
Bêbados, com os cotovelos
no centro da mesa circular,
encontraram o tênue equilíbrio
que os casais necessitam
e ali, de braços entrecruzados,
perceberam que nem a última
dose no fundo do copo
poderia separá-los naquele momento. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Ah... as letras, as palavras...
com elas discorri sobre a vida,
mas não soube computar os erros,
as falhas de cálculos nos projetos
tão certos da juventude.
Muitos se revelaram fora da escala.
Nunca fui bom em cálculos,
mas como matemático obsessivo
calculei os erros, as perdas, as dores
e percebi que minha conta está no vermelho.
Não fui bom vendedor, meu caixa zerou,
os cobradores vieram, não tive como pagá-los.
Ainda calculo os erros e tento fechar uma conta
que não compreendo bem.
Sinto-me como criança, que desmonta o brinquedo
tão desejado que ganhou e ao montá-lo
algumas peças sobraram e agora não se encaixam.
A vida se mostrou uma Letra que não tenho
como saldar nessa balança em déficit do destino.




Ah Alegria....
onde te escondeste?
Palavra de dicionário
verbete oculto,
lenda da infância.
Por ti, Alegria,
muitas pessoas
foram infelizes;
de te buscar
se perderam em lágrimas,
em decepções sem fim.
Por ti, Alegria,
muitos separaram,
outros casaram,
alguns tiveram filhos,
outros adotaram,
na ilusão de te encontrar.
Mas sempre sorrateira
escapas, Alegria, aos planos
de te prenderem.
Por ti, Alegria alegre,
muitos deprimiram
outros se mataram
por ti, Alegria,
por não te encontrar
no frágil horizonte
dos amanheceres.

Volto aos fragmentos para casa
peso o peso do dia na balança
de uma mente atenta aos alaridos
ocultos no negro silêncio da noite.
Ando de cabeça baixa, mãos soltas
como se calculasse os passos 
no jogo de ladrilhos da calçada.
Medo da solidão? Do quarto gelado?
Apenas a certeza do vazio anunciado.
o céu ou o inferno do jogo da amarelinha
Volto no dois/um à infância mentalmente
nesse jogo solitário de ser alguém
que não sou para preservar meu eu
sempre intacto da estranheza do mundo.
No fundo ainda sou criança, as cãs
disfarçam o apelo constante da fantasia
e vivo nesse mundo disfarçando no velho
a criança que ainda sonha com o abraço
apertado de uns pais ideais que nunca tive.


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Porque hoje é feriado
não se lê poesia
tira folga a fantasia
e não se pensa em palavras!!
Porque é feriado 
se ausentou a poesia,
a minha amiga alegria
partiu e eu fiquei só
esperando o feriado terminar
e a poesia voltar!
Porque hoje é feriado
não se lê poesia
nem se vive de fantasia.
Viva a história do Brasil.

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...