domingo, 6 de setembro de 2015

Sempre a vida nesse meio tom
aquele temor do vazio
aquela desilusão após o coito
aquela dor após o gozo
aquela obrigatoriedade do amor
aquela incerteza da morte
aquela incerteza do após a morte.
Sempre o medo: da solidão
do Outro, de nós mesmos,
o medo de mudar, de se arrepender.
E essa vida que passa, que se arrasta
em direção ao nada, ao vazio.
A certeza que a morte finda a vida,
a incerteza do tempo da eternidade.
A vida é esse copo pela metade
é esse copo que só se esvazia
e escorre em direção do nada.
Vivemos esse eterno ensaio de voo
que nunca alcança as alturas
em que o bater de asas é um mero
grito de agonias caladas
desse tempo que chamamos vida.




sábado, 5 de setembro de 2015

Circe

Bebi as palavras melífluas que da tua boca
destilavam em cada doce sílaba
a promessa de um azul celeste encantador.
Cedi a cada dose, a cada promessa de cálice
que nunca terminava de derramar
em meus lábios a flor macia hiante
marcada a ferro de escravo em meu desejo.
Sedento de um líquido que me soava à vida
converti-me em teu animal de estimação.
Afável a teus caprichos e desdéns 
comia as bolotas parcamente que
escorriam de teus dedos de cera branca.
Mas um dia, despertei do sonho e quando
pensava que em ti cravava a espada da vingança
percebi-me em teu leito e aquilo que tanto 
negaste à força do teu volúvel caráter
cedeste, de repente, por vontade e leviandade
deixando a mim a porta do chiqueiro aberta
para que partisse ou ficasse e por vontade
me prendi mais um ano a esse leito de compensações.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Estou fragmentado
há uma estranha incoerência
entre minhas partes.
O desajuste é a forma externa
dos cacos que perambulam
mostrando as formas de mim.
Dou apertos de mãos
beijos suaves nos rostos
e meus cacos vão cortando
os que ousam aproximar-se.
Preciso de uma pá:
recolham-me da insensatez
que é viver esta vida aos pedaços. 

Aprendi a olhar com as palavras
exercício cego de quem constrói
mundos tateando de cabeça baixa
para quem a frequência da vida
é insuficiente para viver todos os dias.
Ausentei-me do mundo dos outros
editei minhas árvores, desenhei minhas flores,
arquitetei minha fantasia numa sintaxe frouxa
sem horários, sem regras, sem patrões.
Nesse mundo de palavras anoiteço quando quero
sem ter a obrigação de amanhecer todos os dias.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Não me envergonho mais das palavras
elas saem despudoradas de mim
e se atiram contra o papel
essa materialidade na qual insisto
em esculpir essas formas verbais
semelhantes à poesia na vibração
do tempo eterno das repetições.
Repito a palavra incansavelmente
até convencer-me de que é poesia
até que as articulações gaguejem 
um som primitivo, grunhido sagrado,
totem de mim e tabu para os outros.
Assim, dispo as palavras nesse incesto
de pai amoroso, devorante do verbo
parido no sofrimento da própria carne.

Para quem ama o dia
a noite tem véus de viúva
que pranteia estrelas
até o doce amanhecer.
O consolo solitário da lua
persiste até o nascer do sol;
novo dia, novo amor
fantasia renovada dos
crentes do amor e da loucura.


Uma lágrima caiu
não é de homem nem de mulher
é salgada como todas as lágrimas
é uma gota salgada
que despencou do alto de um corpo
era uma lágrima humana,
por incrível que pareça,
tão transparente no voo solitário
rumo ao chão desfeito das expectativas
que desconfiei de sua autenticidade
e não tive dó nem pena daquele
ensaio de humanidade contida.

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...