quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Por ser eu, muitas vezes,
sou castigado.
Mas nem todos nasceram
para desfilar em escola de samba.
Nasci sem o atrativo dos pés
que giram sobre os artelhos
e a dança é sempre a mesma
independente da música.
A cor da pele foi leve esperança
de que eu teria o gingado para a vida.
Sou brasileiro sem a alegria do carnaval
mas nunca deixei de ser pierrot.
A diferença é que a lágrima negra
não é da triste fantasia. 
 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Cansei das drogas normais
hoje apenas leio poesias
me embriago com as palavras
me deito com os romances
cheiro o pó acre dos versos
e vejo mundos incríveis.
Uma teia de palavras
prendeu-me no abismo
do horizonte em chamas.
E um vulcão explodiu
semantismos brilhantes
em fagulhas acesas de 
uma força de arcaísmos
como a erupção de
uma garganta que
cansou de se calar. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

As palavras sofrem no silêncio do poeta,
lhe fazem companhia nas noites mudas
quando os corpos dementemente dormem
e os olhos fechados ensaiam a morte.

Nesse ensaio espectral, cada corpo
da casa se transforma em prisão
e veem-se os encarcerados em rebelião
querendo romper as janelas e as portas.

O poeta contempla os corpos contorcionados
no pesadelo anunciado pelos gemidos.

Sente dó dessa legião de condenados
que crê em libertação, sem saber
que vive apenas na plenitude do sonho,
nas horas das ausências das palavras,
 enquanto os corpos dormem e o poeta
só tem a lembrança das vozes por companhia
na vigília insone de todas as noites.


sábado, 7 de fevereiro de 2015

A alquimia das palavras
não me permitiu talhar o ouro,
mas me fez misturar verbos
substantivos e adjetivos
que desencavassem a magia
oculta por trás dos significantes.
Meio bruxo, meio charlatão,
profeta ou espírita mediúnico
arranquei dos soluços das palavras
o choro tenso e inevitável da vida.

As baitacas enterraram a noite
com seus gritos verdes alucinados
e o céu abriu suas asas
de flamingo rosa sobre o dia.
Quando o menino acordou
chorou por encontrar a arapuca
da noite vazia dos pássaros
que cantaram em seus sonhos. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A quem não veio, mas já se foi

Abracei tua ausência muda e serena
e aconcheguei-te em meus braços
pequeno veludo macio, ainda sem rosto,
ainda sem nome, somente vida pulsante.

Agora sei - triste mágoa - jamais te verei,
apenas correrás em meus sonhos
e dirás a palavra que a vida interditou.
E de tua pequena mão, enorme universo,
jamais sentirei o afago acolhedor
dos risos sem motivos, dos choros inexplicáveis.

E tu és sem nunca ter sido, ser indescrito,
sem face, sem sexo, tão dono de si,
tão livre das amarras desse mundo
simplesmente feliz por não ter visto esta terra.
Não! Não! Não farias o mundo melhor,
não quero que te iludas com promessas vãs.

Mas meu mundo seria outro, ao ouvir
de ti, voz ausente, a chamar-me pela
palavra proibida que não ouso dizer [...]
Temi quando as palavras se tornaram insuficientes,
quando teu corpo acenou para mim tão de perto,
e as palavras não conseguiam reter meus olhos
na breve raspagem do entreabrir de teus lábios.
Sabia que romper a barreira das palavras
seria um desaguar no oceano azul revolto;
e perder o controle seguro das máscaras vocabulares
era uma forma de viver que estava desacostumado.
Mas quanto resiste um homem ao hálito fêmea de ti
transformado em sensual maresia que castiga a pele
com suas volúpias ondulares de viajante solitária?
A despeito do perigo, não pelo não avisar das palavras
naufraguei  sem mares, sem ondas, sem ventanias
apenas ao som de tua voz que jorrava líquidos mornos
de época ausente dos amantes em desprezo pelas palavras.
 

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...