sábado, 16 de agosto de 2014

Guarda-chuvas ambulantes
perambulam pelas ruas.
O voyeur da janela triste
imagina rostos nunca vistos.
Tem de se contentar com
o prazer ligeiro das pernas.
Baile entrechocado de tendas
misteriosas multicores,
guardadoras de prazeres
vedados ao obcecado observador.

Nos dias de chuva chuviscam milhares
de poemas de chuva...
gotas de sílabas espalham-se pelas páginas
molhando versos nas goteiras dos telhados.
Dia de chuva bom para comer 
bolinhos de chuva com chá.
Chávenas quentes que molham os lábios
como a chuva deixa a terra molhada.
O chuvisco, a chuva, a chuvarada
trazem dias de quadros pelas janelas.
Em cada apartamento se abre
um quadro triste e melancólico,
que se expõe aos caminhantes da rua.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Fácil perder o jogo
quando não se conhece
as cartas da vida.
Embaralhei os caminhos,
dei as cartas erradas,
equivoquei-me na estratégia...
Perdi a mão e o jogo.
Quebraram a banca
e tive de pagar a aposta.
A vida é um jogo
em que a última cartada
é dada pelo vazio da morte.

Indizível, inapelável
momento dos fatos.
Deixaram-me nu
no meio da rua,
olhado de lado.
Atravessado por preconceitos,
conheci a mim mesmo
despido da máscara.
Traje de gala
herdado de séculos
para a festa da vida.

A volta

Subi as escadas.
Rocei de leve os degraus.
Sob meus pés anos passados,
pequenas farpas acariciavam velhas feridas.
Enquanto subia
lembrava a última vez que desci
para jamais voltar.
Como dói esta escalada,
mais do que as malas,
pesam-me os sonhos frustrados,
os adeuses deixados
atrás da porta que se fechou
e os ecos dos passos,
que golpeavam fundo o asfalto molhado.

Pagode

Um corpo sambou;
jogou os quadris.
Uma performance de ancas
aproximou-se entre negaças
e gingados de capoeira.
Estacou e perguntou:
- Qué dançá, piá?
- Sei sambá não!
- Tá cum medo, piá?
- To cum medo não!
- Tá cum quê' ntão, piá?
Rodou sobre os calcanhares,
rebolou insanamente
pelo salão como uma lua negra,
brincando entre nuvens.

 

sábado, 9 de agosto de 2014

Repetição

O olhar   [ tímido da primeira vez]
o toque [ o entrelaçar de mãos]
o beijo [ a comunhão dos corpos]
o choque [ as primeiras desavenças]
o pranto [ a primeira desilusão]
a separação [ derradeira frustração].

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...