sábado, 9 de agosto de 2014

Arranquei teus olhos com uma navalha:
colei-os na tela em branco,
mas fugiu-me teu olhar.
Radicalizei a perspectiva, redirecionei a luz,
em nova tela preguei teus olhos.
Mas.... perdi aquele instante fugaz,
como se me olhasses do avesso,
tocando os matizes rubros de meu corpo.

Das ruas com jardins de carros
desabrocham pétalas negras
de fumaça e óleo.
Tingem narinas e pulmões
de fuligem pegajosa.
Os escapamentos atiram contra
os homens aformigados em sua mesquinhez,
sonhando que conduzem máquinas
e têm o governo do mundo.
 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Morte do palhaço

O palhaço com seus malabarismos
no farol, tendo a faixa de pedestres
como palco e o sinal vermelho como luz
esborrachou-se no asfalto quente.
Seu salário de moedas espatifou-se,
tocando a única canção fúnebre
executada em seu velório.
A multidão expectante de motoristas
esperou o palhaço se levantar;
e no silêncio sepulcral não 
perceberam que seu coração
explodira como rojão em dia de São João.
Quando o farol abriu, ninguém viu
a última lágrima arlequinal escorrer
pela face muda e triste do palhaço;
quem sabe saudade de Colombina,
quem sabe esperava o adeus daquela mina,
que arrancou com o carro em alta velocidade.

Escravo de mim
não me componho em versos.
Sou carne, osso, sangue,
desejo de vida longa.
E morte breve.
Aceito tacitamente o desejo;
o verso é apenas ensejo
do prazer em palavras,
deliciosamente saboreadas,
pronunciadas ciciando
sílabas "eróticotônicas"
na explosão bilabial;
projeto de beijos sonororeal.
Nada de verso vocábulo, signo;
só carne, dentes, saliva.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

As velhas grávidas invadiram o mundo.
Estão prenhes de vida.
As bocas escancaradas pedem sonhos
e não terra que as cubram.
As gengivas cobrem-se de próteses dentárias
prontas para desfrutar a carne do prazer.
Não ao leito ineludível da morte
e sim ao tálamo do prazer "gozivivo"
Ávidas da langonha que molhe as paredes secas
e umedeça as entranhas dos prazeres falsamente juvenis.
O gozo verdadeiro está na certeza
de que a vida acaba no derradeiro gemido.

Na correria do dia
fiquei alheio à poesia.
Em meio a papéis sem sentido
(indiferentes ao lirismo)
preenchi protocolos bestas;
presidiário das lacunas de formulários.
Quanto desperdício de papel!
A folha quando castrada de sua liberdade
aborta o poder poético do Gênesis.
 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Quando vim ao mundo
desembarquei com a passagem de regresso.
Visto com data, dia e hora marcados
para novamente ser desterrado.
Na primeira viagem vim de olhos fechados
abrindo-os na chegada;
na segunda jornada irei de olhos abertos
e serei embarcado de olhos fechados.
Da primeira vez não tinha consciência para compreender.
Porém, na segunda vez, terei consciência 
demais para cerrar os olhos em paz.

  A poesia é essa água que escorre pela boca e d esce pelas bordas  rompendo a barreira dos lábios. Diz e não diz f abula mundos intangív...